do Verdes Trigos
Bom livro para quem não quer esquecer o maior mito da canção argentina é “Carlos Gardel, Lunfardo e Tango“, de José Lino Grünewald, lançado pela Nova Fronteira há muitos, muitos anos (é um item precioso de sebo, para quem gosta do cantor e quer conhecê-lo melhor).


Quanto às letras, os tangos que Gardel cantava trazem uma poesia que eu acho que não envelhece, a despeito de seus exageros e de seus lamentos de machões feridos em seu narcisismo clássico, mulheres sempre más, traições, patifarias etc. Para quem for procurar o livro de Grünewald, é bom adiantar que ele traz uma segunda parte com um vocabulário do “lunfardo“, a gíria portenha que se incorporou ao tango, e também uma série de letras de tangos clássicos, que pensamos ter entendido, mas nem tanto…Ao ouvi-las, ouvimos uma coisa; vendo-as impressas, descobrimos outras tantas. O vocabulário ajuda a decifrar as letras e as letras nos ajudam a voltar àquele passado em que o tango era onipresente em rádios brasileiras do interior. Gatos de porcelana, machos que só se condoem de si mesmos, mulheres fatais, imprecações contra o Destino e até mesmo uma exaltação verdadeiramente trágica do papel materno em “Silencio” (no qual uma mãe perde seus filhos na Primeira Guerra Mundial), Gardel cunhou signos de um imaginário lírico e trágico que volta e meia nos voltam à memória e parecem conter verdades emocionais que ressoam profundamente em nós. Não entenderemos quem somos se não prestarmos atenção (eu nem diria tributo, apesar da palavra me tentar) a eles.

É a história de uma mulher que, viúva, retorna à cidade natal (de onde saiu quando jovem e onde já não reconhece mais nada) e procura por certo Xavier, cantor de tango que tinha o pseudônimo de “Javier Ferres” por quem se apaixonou ao ouvir cantar, num bar antigo da cidade, o tango “En esta tarde gris“. Ela fica sabendo que ele está ainda vivo, e vai procurá-lo com vontade de reencontrá-lo tal como um dia o amou, mas…
Mais do que isso não contarei, claro. Usei abertamente lembranças de minha terra natal, Novo Horizonte, SP, onde era comum que eu, desde menino um ouvinte fanático de rádio, me deixasse contagiar por um programa da antiga rádio de lá, ZYS-9, que era patrocinado por um hotel local, só de tangos. Minhas irmãs mais velhas, Josefa e Santa, gostavam de cantar junto com aquelas letras, e falavam não só de Gardel, mas de Libertad Lamarque, Pedro Vargas, Nat King Cole (que tinha um disco de boleros de enorme sucesso na época), Bienvenido Granda, Miguel Aceves Mejia… Havia muitos imitadores brasileiros de cantores de tangos e boleros, e adotar um nome castelhano como pseudônimo, para cantores apenas esforçados e quase anônimos como o “Javier Ferres” do conto, era bastante comum.
Em minha casa, rolava uma espécie de culto ao que era cantado em castelhano, porque, quando menino, vivia-se ainda, no rádio, entre fins dos 50 e inícios dos 60, sob a força (só diluída bem mais tarde, com a Bossa Nova e a Jovem Guarda) do bolero, da rumba, do mambo, do tango, da rancheira. Éramos, curiosamente, mais afeitos à música da América Latina (mas sem contaminação por ideologias políticas, como posteriormente) naqueles tempos. No meu caso particular, meu pai, espanhol nascido em Málaga e vindo já menino crescido para o Brasil, jamais falou português direito e nem se esforçou para isso, e em casa havia uma fala informal de portunhol, que facilitava o entendimento daquelas canções para lá de sentimentais. Vou sempre associar o tango a tardes que pareciam particularmente “grises” e a um sentimento de que eu podia entender a “melancolia portenha” muito bem, de um modo que parecia até predestinado.
UMA VIDA UM TANTO MISTERIOSA

Dezenas de controvérsias cercavam esse mito, ou mito não seria, e foi bom encontrar eco dessas coisas no livro de Grünewald. O mistério já começa com seu nascimento, alguns reivindicando que se tratava de um uruguaio, outros querendo que fosse de Buenos Aires mesmo, mas os documentos mais sólidos o apontando como francês. Capaz de cantar com tanta sensibilidade aqueles dramas de amor, ninguém conseguiu, no entanto, detectar uma mulher definida em sua vida, a não ser sua mãe, a quem devotava um afeto que parecia excluir o resto da humanidade feminina. Bastou para que os psicanalistas de bolso lessem o dilema freudiano de sempre e cismassem que era homossexual, coisa de que ninguém tampouco teve a mínima prova (a meu ver, a forçosa associação que se faz entre homens muito devotados às mães e a homossexualidade masculina não tem uma leitura única; é sabido que machões prototípicos veneram a mãe acima de tudo, sem terem aversões ao contato heterossexual – pelo contrário, preferindo-o claramente – e sendo muito bem capazes de manter os grandes amigos como grandes afetos sem querer ir para a cama com eles). Gardel, segundo se depreende do livro de Grünewald, parecia preocupar-se exclusivamente com a qualidade de seu canto, de sua música.

Ele não morre, e não há por que morrer quem cantava “Madreselva” e quem, em “Amargura“, faz a mais rasgada confissão de machismo ferido de que tenho notícia: “Um viento de locura/atravesó mi miente/deshecho de amargura/yo me quise vengar/Mis manos se crisparon/mi pecho las contuvo/su boca que reía/ yo no pude matar…”Sugere um ódio danado às mulheres, mas dessa psicopatologia machista saíam pérolas poéticas imprevisíveis, como as que brotavam no Brasil nas letras do nosso Lupiscínio Rodrigues, de Herivelto Martins e tantos outros.“Su boca que reía/yo no pude matar…”
Pode-se deduzir que “essa boca que ria” rirá por toda eternidade desse homicida em potencial que, na verdade, era apenas um homem frágil que abrigava sob seu rancor as maiores vulnerabilidades que um apaixonado podia guardar. Ele não mataria ninguém, claro – ele apenas lançava bravatas e esperneava com pena de si mesmo. Notas assim soam nas peças e crônicas de Nelson Rodrigues e também, ironicamente, desesperadamente, parodicamente, nos contos de Dalton Trevisan e nas letras conscientemente debochadas de Aldir Blanc. Embora alguns narizes pretensamente superiores se empinem diante da música popular, vendo nessas coisas apenas plebeísmo, vulgaridade e baixeza, é para a eternidade que certas broncas masculinas, mais desesperadas do que cafajestes, foram escritas.
Gardel é um desses mitos com quem temos uma relação meio “pecaminosa”, porque escorrega no mau-gosto, mas é grandemente reveladora. Se alguém acha que o seu machismo é grande demais, tente imaginar maior louvor, verdadeiramente místico, a uma mulher como o que foi escrito em “El dia en que me quieras”. Outro dia, vendo televisão, vi um trecho do filme homônimo em que ele canta a sua canção mais famosa e entendi perfeitamente a razão da perenidade dela. Difícil imaginar música que idealize mais o amor de uma mulher e seja de uma devoção até mística, com seu “rayo misterioso” que “hara nido em tu pelo”, e ao mesmo dê a impressão de uma consumada impossibilidade, donde o tom de lamento e desespero que a percorre: o que ela deseja e prega é bonito demais para poder existir senão como um suspiro impotente pela fusão entre dois amantes e o resto do universo.

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