quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Ano Novo, Vida Velha...

Por Eduardo Carvalho



[“2010 – Uma Odisséia no Espaço II”. Arthur Clarke sugeriu em sua continuada obra de ficção, a importância do desafio em busca de um resgate. Esta forma de revolução, ainda se faz necessária, mas não no espaço sideral e sim dentro de cada um de nós, pelo bem da realidade]


País de 3º mundo. País em desenvolvimento. País emergente. Na ciranda das nomenclaturas, a realidade persiste. Então perguntar por que, no cenário supranacional, ainda estamos civicamente distantes dos componentes do G7/8. Fatores econômicos? IDH? Pelas insistentes estatísticas dos altos índices de mortalidade infantil e/ou do analfabetismo? Ou seria a forte prevalência de edentados? Talvez pela ausência de know-how na lide com os bastões de Urânio, caro malabarista Ahmadinejad: no circo do mundo, é necessário existir mais atores, até outros palhaços, para que a arte de viver não se transforme em guerra.  Reticências para reflexões...

Na zona abissal da natureza humana, pode-se perceber que esta distância “cívica” se dá principalmente pelas “pequenas coisas”, as “tantas coisinhas miúdas” que se repetem inadvertidamente em nosso cotidiano tupiniquim - “roendo, comendo, arrasando aos poucos o nosso ideal” – na maioria dos setores da vida nacional, em meio à contemplação dos que limitam-se a virar para louvar o “macro-mundo”, algo assim feito estátua: naturalista ou cosmológico demais para o meu gosto.

Dentro de cada um de nós, queira-se ou não, é possível encontrar o cerne da estagnação, nosso maior obstáculo, de ordem pessoal, tal qual um gene em latência, aguardando agentes externos para ativação. Esta, pode ocorrer mais facilmente nos momentos de choque entre a individualidade e a coletividade, ou permanecer inerte pela vida inteira, quero dizer: equilíbrio, razoabilidade, consciência > movimento, palavra, gesto, atitude em tempo e espaço adequados. Por exemplo, quando vamos a uma festa, nosso traje combinará ou não com o meio. Mas a coisa não é meramente superficial assim. A princípio, temos que saber em quais “festas” devemos ir. O grau de conhecimento (cultura) é o fiel da balança, diretamente proporcional àquele equilíbrio.

Nesta interatividade indivíduo/sociedade, homem/ambiente, uno/polis, é que podem vir à tona as mazelas da estagnação evolucional, própria dos cambaleantes ou desequilibrados, também dos passivos. Tanto pode ser involutivo deixar o “eu” de lado como também supra exteriorizá-lo. Dependerá da situação, envolvendo os determinantes tempo, espaço e aquilo que chamarei de “algo assim”.   

Reimackler, na solidão do seu “eu”, implorou chorosamente pela sua sobrevida na chegada da Polícia. Anteriormente, assumira sua condição de “guerreiro do Império”, bolando estrategicamente ações típicas de eternos aprendizes - que nunca chegarão ao êxito dos expoentes mentores da violência como Hitler, Ceausescu, Videla, Little Bush – por ter encontrado identidade em parte daquele  “grêmio” esverdeado, em função de tudo aquilo que está no 1º parágrafo. A combinação perfeita: tempo + espaço + “algo assim”, que no caso dele significa tudo aquilo que lhe falta, ou seja, tudo aquilo de que ele é destituído. Veio a fama, revelou-se a fome.

Nu e sem a sua música, o marginalizado, que tivera o apoio logístico de seus famintos companheiros igualmente excluídos, juntos, todos tiveram enfim a oportunidade de participar de um evento da “vida social” - em virtude de uma manobra da diretoria alvi-verde com o apelo na forma de sucateamento do ingresso, diretoria que também é conseqüência do que está contido no 1º parágrafo – compondo então em quadrilha um recorte fiel da realidade brasileira, mostrando aos incrédulos que a maioria do povo ainda se encontra alijada de uma vida social digna, compatível com um mínimo de bem-estar, mais pela ausência de instrução, restando muito aquém de quaisquer “direitos humanos”, teorização com ares de eventualidade: uns têm, outros...

Ele, um “Rei” sem trono (mas com um vaso sanitário sem tampa), que nunca d’antes fora ouvido, teve a chance, via “rebaixamento – o retorno”, de mostrar ao mundo sua vontade interior, que ele é um sujeito capaz para a vida sim, mesmo situado à deriva do mundo, bem “aos pés” da sua latrina comunitária. Cumprindo todas as etapas dos crimes, galgadas suas tipificações, outros semelhantes regozijaram-se ao saber, através da mídia, que uma de suas bombas caseiras surtiu o efeito nocivo desejado quando, ao cair no colo de outrem dentro de um coletivo, detonou parte da mão daquela que foi, também por falta de informação adequada, remover o artefato na tentativa de salvar quem o “recebeu” do “céu”. Dedos a menos para ajudar a apontar o próprio caminho, agora então mais dependente de sua voz, a qual também nunca fora ouvida, figurada e ignorada como uma gota d’água no oceano, ou como um lamento gutural no banco do fundo em meio ao decibéis do coro odético de uma igreja “acalentadora”, daquelas que prometem o “céu”, não importando como fazem isso. Só fazem responder que “foi por Deus”, delegando ao divino seus deveres e obrigações.

Pensar, no caso, se a bomba atingisse o interior de um Land Rover, qual o tratamento jornalístico e qual o seguimento político desta “fatalidade” para muitos, tragédia para poucos, negligência para quase ninguém...

Então a vida segue, a fila anda e a prostituta vai mais “tranqüila”, pois já pode e despreocupada, comprar seu coquetel. Ainda mais agora que, mesmo que ela não saiba, sua “profissão” está em vias de regulamentação no Ministério do Trabalho, em função do irracional decreto do “Programa Nacional de Direitos Humanos”, aberração antiga recentemente editada, “algo assim” com mais desperdício de tempo para novo e bastante prejuízo à sociedade brasileira. Deixa no ar a dúvida, por que razão o Governo Federal, em véspera de campanha de sucessão presidencial, iria dar um tiro destes na mão onde ainda restam 5 dedos?!

(Coisas do Brasil. Difícil é cumprir a Constituição da nossa República Federativa, mais fácil é baixar decretos. E La Mídia transfere a culpa para o Presidente da República, sendo que as matérias são de competência exclusiva do Congresso Nacional. Pelo menos, hão de ser “discutidas” (teoricamente) nas duas casas: ato que Lula não tem poder de sanção nem veto. Mas quem compôs o Governo? “O que será que será...”)

Aquela bonitinha mas contaminada prostituta que, quando vai à Farmácia, o faz dignamente. Ao contrário dos atos soturnos do Senado da República, prática rotineira à décadas, vindo à público somente na hora que convém a “Alguém”. Tempos de coronelismo, de centralização do Poder, apadrinhamento político, lobbys e inversões de valores e princípios, como a “supremacia do interesse privado sobre o interesse público”. Quando Rousseau “chama o povo à responsabilidade pelo seu próprio destino”, pensamos na eficácia do voto como instrumento expoente das democracias. Mas como, se o sistema funciona justamente em prol da inabilidade dos votantes? Não há mais problemas em “votar”. A questão é “em quem votar”, ou seja, “quem são aqueles em que se pode votar”, ou ainda “quem se candidatou”: estariam eles qualificados mesmo ao pleito? Seriam os bastante competentes, na acepção jurídica desta palavra? Esta resposta já caiu do vento.

Algum tempo atrás, perguntei a uma colega de trabalho o quê tinha lhe motivado a votar no candidato do grupo político do Arquiteto especialista em urbanismo. Ela, de escolaridade superior, respondera que era “por causa da Rua das Flores, do Jardim Botânico, da Ópera de Arame...”, não sem “elitizar” a opção, auto-sugestionada, incluindo-se na casta mais alta da pirâmide social curitibana: uma espécie de aculturação do malufismo obreiro. Ela, que não conseguia enxergar que precisava daquele reles emprego para sobreviver, pois a realidade brasileira não lhe permitia a auto-suficiência profissional.  Ela que passaria fome se não trabalhasse ali também. Ela ali, vulnerável. Mas a Pedreira estava lá, incólume, sem prejuízo à memória de Paulo Leminski. Ele culto, ela...

Fechando o carrossel da usurpação política que culmina nas desigualdades sociais, para explicar Reimackler e sua facção “Império”, fico inicialmente com uma das teorias da Escola da Socialização Defeituosa, a “Teoria das Sub-culturas de Grupo”. Nesta, o indivíduo criminoso é repugnante por violar os valores sociais. O pluralismo axiológico de uma sociedade, per se indica que esta é composta por várias pautas de valores, cuja culpabilidade atribui-se àquele que, além das regras, viola a pauta oficial da sociedade, e não a sua própria. Os imperialistas não destruíram o seu patrimônio, aquilo que eles consideram de valor próprio, e sim aquilo de que não usufruem, que é o patrimônio da sociedade, da qual estão excluídos. Simples. Sobrevivendo na mata social (ou abaixo do pé da pirâmide), quando uma vez à margem, escaparam por uma brecha artificiosa e caíram na corrente do poluído rio coxa-branca, feito piratas tomando de assalto sua galera já à deriva: naufrágio generalizado. Só porque os dirigentes não de ontem violam as leis da boa sociabilidade (recorde veto gionédico em 2005), isto é, da natureza.

Complementarmente neste caso pode-se aplicar, pela Escola Estrutural-Funcionalista, o ensinamento de Thomas Merton, apontando que há na sociedade uma verdadeira discrepância entre meios e fins: a cultura (quando capitalista – friso meu) exige os fins, através dos padrões comportamentais fomentados pelos sonhos de consumo, ditando objetivos pré-determinados. Mas as instituições sociais não fornecem os meios, criando um vácuo conceitual entre eles (meios e fins), onde o crime torna-se um instrumento (“meio”) alternativo para esta busca inalcançável, caracterizando o que se conhece por “anomia”. Mais simples ainda. Assim o 6 de dezembro entrou para a história, deles: Reimackler, o famoso taleban dos Pinhais. Símbolo de quem não sabe perder o que não tem. Mas Cirino não precisará mandar seu exército de seguranças falsificados (formados 25 de março) capturá-lo, a Polícia já o fez.

E vieram as retrospectivas 2009. Tudo sempre igual, com novos atores sociais, ou seja: novas vítimas. Elas (as retrôs) acendem a memória dos reféns da violência, reforçando justamente aquilo que os detentores do Poder tem como objetivo, nada mais do que a imposição da sensação de medo na população, inoculada feito cloreto de potássio em cada coração brasileiro. Aquilo tudo que outrora não passava de mero assunto policial, foi transformado em questão de segurança pública - cartilha manjada e seguida desde o popular falecido Alborghetti até o “elitizado” cacotanásico (mata com dor e angústia a esperança do povo) Jornal Nacional – e elevado à categoria de referencial absoluto de sobrevivência: viva conforme a notícia. O submundo marginal tomando conta do mundo real: quem não se impressionar, está fadado a ser a próxima vítima. É um toque de recolher disfarçado de informação.

A mando do calendário gregoriano, encerrei 2009 com espumante à beira de uma praia catarinense. Distanciado dos meios de comunicação, limitando-me a aproveitar os bons momentos com a família e os amigos, em viagens. A mando sei lá do quê, entrei em 2010 com esperanças renovadas, em todos os sentidos. Qual o quê, entrou 2010 sem açúcar nem afeto. E não comi meu doce predileto.

Por isto, o título “ano novo, vida velha”: a resistente fórmula continua. Noticiários já vêm com opinião formada, é só seguir, e correr atrás dos corpos que sumiram na tragédia da hora, que dura incontáveis pautas. Vamos velar os mortos soterrados, mostrando suas fotos na TV, e o quanto eles tinham ainda de vida pela frente, entrevistando sarcasticamente seus parentes, indagando-lhes bestialmente “como ela era” ou “o que fazer agora sem ele”, ou ainda “vai deixar saudades?”: é a veneração da morte metendo medo na vida. Antigamente, os falecidos eram velados nas capelas; hoje perdeu-se o respeito aos cadáveres, porque não os deixam descansar, matando-os novamente a cada instante, a cada programa, em nome do impacto, vendendo terror para os semi-vivos comprarem e calarem-se.

Novelas e realitys expõe corpos semi-nus, angariando a audiência dos onanistas mentais digo, dos espectadores, aqueles que apenas esperam pela vida, mas sem expectativa alguma. Saciam-se através das imagens que conseguem guardar na memória, para depois discutir a “beleza” da vida nas rodas, não sem consumir aquilo que mandam os intervalos: quando não conseguem, Merton reaparece e explica novamente. O prazer mental pela imaginação, às vezes recorrendo à própria mão.

Esta sensação de “preenchimento” virtual, supletiva o propósito da existência humana, que é a integração com o próximo. Deste modo as pessoas, acuadas, não se sujeitam a novos relacionamentos, seja com colegas de trabalho ou estudo, vizinhos, alguém da balada ou do ônibus, nem mesmo resgatando os próprios parentes. O sistema visa o hermetismo, criando pessoas “prontas”, incapazes de novas palavras. Fechado seu círculo, o “resto” é resto. Por isto apresse-se, se não quiser ficar fora de moda, da moda que os meios de comunicação impõem.

Paralelamente, laboratórios de última geração criam retrovírus capazes de dizimar populações, em busca de mais espaço sobre a crosta terrestre, “algo assim” a ver com, novamente, uma espécie de “purificação da raça”. Aids, gripe suína e outras moléstias fomentam as indústrias bioquímicas, “triliardárias” às custas da saúde do povo. Resta saber qual será o ser microrgânico que nos aterrorizará em 2010: uma nova bactéria ultra-resistente? Um parasita altamente patogênico? Ou quem sabe um inocente protozoário geneticamente modificado a combalir células humanas? O que a “Ciência do Poder” será capaz de transformar? Mas não se preocupe que os ventríloquos do Jornal Hoje, com a peculiar e característica cara de espanto, avisarão a hora de você se recolher em casa.

Isto, 2010 em casa: “na tela da TV, no meio desse povo, a gente vai se ver na webcam”. Pay-per-view. Mas em casa. Abasteça-se de DVDs, CDs e CFODs. Playstation, Nintendos, laptops, roteadores. Divirta-se na base do MSN, Twitter e Orkut, reúna-se no Skype. Compre os discos do padre improvisado a cantor - que largou a missa para imitar Fábio Jr, para o deleite de suas fiéis, loucas para pecar: o que é proibido continua sendo mais gostoso. Microondas na cozinha, aposente o fogão. Encha a despensa de Coca Zero com bastante ciclamato de sódio. Milhopan, pipocas, sucrilhos, ovos e bacon, no mais puro e alienado american style. Deu fome: delivery. Passe o resto de sua vida assistindo sitcoms, tudo em nome deste “Manual Consensual de Washington” que determina o modelo obrigatório do “american way of life”. Se quiser saber o que acontece lá fora, é só ligar-se no Conexão Manhattan, totalmente insuspeito. No Brazyl, plugue-se no BBB10 pelo pacotão 24 horas e nem saia de casa para “votar” no paredão. Vote bem, vote consciente...na melancia coxuda da hora ou no bo(m)badão mudo da semana:

-“Então Bial...que segmento da patuléia televisiva nós perdemos em audiência”? – perguntou Boninho no fim do ano passado.
-“Bem...acho que perdemos um pouco do público GLS. E também no Estado do Paraná não estivemos muito bem no BBB9.” – respondeu o ex-correspondente internacional de guerra, de sandálias e sóbrio.
-“Então bota lá umas bibinhas e umas velcros, além de alguns paranitos também...chega de cowboys!” – receita pronta para aumentar o ibope, fatalmente. Essa edição vai bombar. Desta vez vale tudo: aranhas esfregando e roscas queimando, digladiando-se em plena “casa”, no mais primitivo e rudimentar apelo, a la Discovery Channel, tipo sexo selvagem entre animais provavelmente irracionais, natureza morrrendo na telinha...

Fique ligado, pois talvez apareçam closes de seios, bundas, pelos pubianos, grandes lábios ou bolsas escrotais, para alegria daquela turma onanista. Aprenda com eles (BBBs) em meio aos provérbios bialescos a “ser você mesmo”, “aprendendo a jogar” sem viver. E você se identificará mais ainda com o padrão global se adquirir um automóvel da marca patrocinadora deste “show”. Ou se usar as pilhas que bancam a prova do líder na sua vida. Caso contrário, você pegará o caminho da roça, porque o “Brazyl” não lhe quis. O Brazyl que não conhece o Brasil. O mesmo Brazyl que preferiu as roliças coxas acéfalas de Sheila Mello em detrimento da beleza integral da Bandeirinha Ana Paula Oliveira. Seria este Brazyl votante a torcida do Botafogo? Ou a torcida do Fluminense?  

Pois eu digo que é preciso mudar, urgente. Já é o 11º ano do novo século e tudo continua velho. Precisa-se vislumbrar novas perspectivas, horizontes, sonhos possíveis, amores também. Por quais merdas d’água a sociedade civil nacional não se reorganiza neste sentido? Até quando continuaremos historicamente passivos diante da força da mídia que trabalha pelo poder dos poucos? Pois que se foda a natureza conservadora das tradições do nosso povo! Um povo que precisa de instrução, educação e informação independente, livre de interesses particulares. Chega de bolsas, assistencialismo, inclusões sociais na base da porrada. Vão direto na ferida, como nas concessões de comunicação por exemplo, mas não ditatória e sim adequadamente: nunca em nome dos “direitos humanos”, mas principalmente por ser questão de ética! Criem outros instrumentos que possam instruir os telespectadores, que por sua vez terão conhecimento para definir o que é bom e, mais ainda, aquilo que não presta, aquilo que involui. Transformando de vez aquele “algo assim” no “algo a mais”: uma nova virtude, por exemplo.

Haveremos de superar, de alguma forma a falta de vontade política pela transformação da sociedade.  Simplesmente porque os políticos ainda são os mesmos! O que pode se esperar de Sarneys, Magalhães, Calheiros e Collors da vida? Foi-se a época em que havia no cenário nacional gente como Teotônio Vilela, Tancredo Neves, Ulisses Guimarães. De lá pra cá o predomínio é de radialistas, religiosos, latifundiários, lobistas, descendentes do coronelismo...

O fato é que a sociedade ainda não está devidamente instruída para votar, simplesmente porque não há fundamento em suas escolhas. Se os cargos são públicos, por que não expor o currículo pessoal dos candidatos? Histórico escolar, atividade profissional, cursos, idiomas, histórico partidário, cargos ocupados, legislaturas, carreira detalhada com autorias de projetos de lei, votações em aberto, programas de governo, plataforma de mandato, tudo o que pudesse servir para que o eleitor realmente tivesse e soubesse o real motivo da sua escolha, com argumentação, baseado numa espécie de cartilha que pudesse justificar seu voto. Longe das futilidades da motivação da colega doutora sem doutorado, mas sim com fundamentos. Porque a mudança, ela está no meio de nós. Justo naqueles detalhes, que eventualmente nos impeçam ao movimento, isto é, à VIDA NOVA!

Enquanto isto não ocorre, eu tomo mais um gole e ofereço a qualquer sentado que, pasmado, limite-se a me chamar de pessimista:

“...Não quero a razão
Pois eu sei
O quanto estou errado
E o quanto já fiz destruir
Só sinto no ar o momento
Em que o copo está cheio
E que já não dá mais
Prá engolir...”


P.S. coletânea >Improvisei: tomei cachaça no lugar de cerveja, deu nisso aí em cima. Lopes já faz anunciação de improvisos, com Alex Sandro na meia e Marcelo na lateral direita...no que será que vai dar???? Desafio, odisséia, revolução ou pura ficção? Vamos dar uma espiadinha? Nada disso: vamos cobrar! / Obrigado doc Laertes pela foto do “Centenário Verde”, já repassei. Talvez por isso depredem Ligeirinhos / Caetano & Gil: “O Haiti é aqui, o Haiti não é aqui”. Doutora Zilda lembrou Sérgio Vieira de Mello: o próprio homem destrói a paz de duas formas, ora por si mesmo, ora pela natureza, todas por conseqüências suas / Então Paulo...aqui, foi uma prova do efeito estimulante do álcool sobre o SNC nas primeiras horas: se beber, não escreva.

Abraço, Ed.  

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A Notável Zilda Arns

Existem pessoas, para não dizer todas, que perpetuam suas obras à humanidade, seja em seu pequeno varejo, seja simplesmente por procriarem, ou através de suas ações, por mais imperceptíveis que possam parecer. Partindo daí, teremos um largo espectro de notabilidade, dependendo do tamanho daquilo que se faça, ou de sua qualidade, seja para o bem ou para o mal.
Pois neste espectro, meu, imaginário de cada um, Zilda Arns, cabe lá em cima, no primeiro time da humanidade, por suas ações em prol do próximo, de maneira objetiva, eficaz, importante, marcante.
Acaba concluindo sua passagem neste planeta, de uma maneira um tanto quanto violenta, abrupta e altamente oposta à maneira com que lidava com os seus, os outros, especialmente aos velhos e crianças.
Não morreu aqui, posto que há quem vá continuar sua ação, ainda que não com o mesmo DNA, pois isto é único em cada um, mas levando adiante a idéia solidária daquilo que fazia, o que não é pouco.
Mãe, madre, irmã, companheira, filha, neta, Zilda!!
Uma daquelas pessoas que me faz ver o tamanho real que tenho...

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Desmentindo a "armação" sobre a vacina anti-H1N1

Li há pouco, no twitter do Jorge Pontual, que a notícia sobre a possível armação da Indústria Farmacêutica com envolvimento até da OMS, segundo o alemão, chefe do Comitê da Saúde da União Européia, não passa de boato, ou notícia mal "plantada", sabe-se lá por qual motivo. Segundo Pontual, o alemão não seria mais chefe do Comitê, até.
Dá, também, um link com a notícia, desmentindo a afirmação anterior, do site do Genomics, Evolution and Pseudoscience , em inglês, que como não entendo bem, parece apenas desmentir a ocorrência eventual de câncer, por ocasião da aplicação da vacina. Ainda no twitter, desmente através de notícia em link que também lá reproduz, sobre outro boato que envolveria autismo em crianças, por conta da vacina, este já no site do New York Times.
Com que ficamos??

Extraído do blog Provas de Contacto


12 jaNUARY 2010


... E O IRAQUE TAMBÉM TINHA
ARMAS DE DESTRUIÇÃO EM MASSA...




"Os ganhos de cinco mil milhões de euros da Indústria Farmacêutica no fabrico de vacinas contra a gripe A e antivirais estão sob suspeita do Conselho da Europa. A entidade está a avaliar a possibilidade de criar uma comissão de inquérito para analisar 
a pressão que os laboratórios terão exercido na Organização Mundial de Saúde (OMS) para ter declarado a doença como uma pandemia, avança o Correio da Manhã. Só Portugal gastou até Dezembro passado 90 milhões de euros, 45 milhões dos quais em vacinas. Segundo o presidente da Comissão de Saúde da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, Wolfgang Wodarg, a campanha da 'falsa pandemia da gripe, criada pela OMS e outros institutos em benefício da IF, é o maior escândalo do século na Medicina', escreve o jornal". (aqui)

Drug companies face European inquiry over swine flu vaccine stockpiles;

The 'false' pandemic: Drug firms cashed in on scare over swine flu, claims Euro health chief;

H1N1 Flu Is a False Pandemic, Health Expert Claims;

Mega Corruption Scandal At The WHO.

A única dúvida reside no que escrever: QED ou told you so?...

(2010)

Marx: naturalismo e história



Extraído do blog Carta Maior

Marx: naturalismo e história
O que pode ser preservado do marxismo hoje? Marx é realmente um filósofo? Em que sentido ele nos libertou de Hegel e nos aproximou de uma posição naturalista? Por que, para Marx, não há um sentido na história? Marcel Conche, professor emérito na Sorbonne, nos convida a entender a posição do Marx filósofo, não a do historiador nem a do economista. E o modo como Marx lê a tradição filosófica que lhe era contemporânea fortemente marcada pelo legado hegeliano, retomando nos pré-socráticos as fontes teóricas para a sua crítica da finalidade na história.
Em outubro de 2003, a revista francesa Le Nouvel Observateur dedicou um número especial à obra de Karl Marx. Cinco anos antes da hecatombe econômica mundial de 2008, a publicação perguntava: Marx pode ser o pensador do terceiro milênio? Como escapar da mercantilização do mundo? Com a eclosão da crise que abalou o sistema financeiro internacional, Marx “voltou à moda”. Um retorno positivo, pois traz de volta ao cenário intelectual um gigante do pensamento humano, mas que precisa enfrentar uma série de clichês, mitos e deformações teóricas que se construíram em torno e invariavelmente contra as idéias do autor de “O Capital”. Um dos méritos da publicação francesa é apontar algumas idéias e metodologias investigativas de Marx que podem nos ajudar a entender (e transformar) o mundo neste início de século XXI.

No artigo intitulado “Marx philosophe: matérialiste, hélas!”, Marcel Conche, professor emérito da Sorbonne, propõe-se a responder ou, ao menos, a indicar o caminho de resposta para algumas perguntas importantes sobre a obra de Marx: O que pode ser preservado do marxismo hoje? Marx é realmente um filósofo? Qual era a paixão de Marx? Em que sentido ele nos libertou de Hegel e nos aproximou de uma posição naturalista? Por que, para Marx, não há um sentido na história? Para Conche, o materialismo de Marx está preso a um inimigo do passado (o idealismo) e, neste sentido, olha para trás. Por outro lado, ao nos libertar de algumas idéias de Hegel deixa um legado para pensarmos uma filosofia da Natureza e da finitude, uma “filosofia para o amanhã”.

Mais do que defender a atualidade de Marx, ou antes de fazê-lo, Conche nos convida a entender uma posição, a de Marx filósofo, não a de historiador nem a de economista. E o modo como Marx lê a tradição filosófica que lhe era contemporânea - e fortemente marcada pelo legado hegeliano -, retomando nos clássicos pré-socráticos as fontes teóricas para a sua crítica da finalidade na história. Essa crítica é, vale dizer, uma grande desconhecida do ambiente de debate público que foi consolidado há pouco mais de 30 anos, no mundo. No período que se seguiu aos ditames financistas dominantes, a mercantilização avançou sobre a informação e a consumiu, inclusive com a carapaça de que o marxismo defendia um fim na história, com base em aberrações teóricas autoritárias datadas e obviamente na má-fé que precificou a informação, especialmente a brasileira, ao longo das últimas décadas. 

O texto de Marcel Conche não traz qualquer novidade, nem uma leitura peculiarmente interessante da obra de Marx. Ele traz Marx, enquanto filósofo, inclusive da história. Só isso e tudo isso. A Carta Maior seguirá oferecendo os seus leitores outras contribuições que julgarmos válidas para esclarecer, informar e contribuir, na pequena parte que nos cabe, a formar um ambiente não-mercantil de informação no país. Segue o artigo: 

Marx, filósofo: materialista, hélas! (Marcel Conche)

Publicado originalmente no Le Nouvel Observateur – Hors-Série, edição outubro/novembro de 2003

Há alguns anos, em “Viver e Filosofar” (“Vivre et Philosopher”, PUF, 1992), respondi às questões de Lucille Laveggi. Uma delas era esta: “O que hoje em dia você preserva do marxismo?”. A resposta foi esta: “Entendendo por marxismo unicamente o conjunto das idéias de Karl Marx, preservo delas alguma coisa? Parece-me que sim, mas num domínio, o da economia política, que eu ao mesmo tempo abandono como dele. Não tenho nada a dizer nesse domínio, o da economia política, mas a repartição desigual e injusta dos bens materiais é um fato que é preciso explicar, e ele o explicou. Isso quer dizer que sou marxista? Não, não mais do que sou newtoniano por admitir a lei universal da gravidade. 'Eu não sou marxista', diria o próprio Marx, querendo com isso dizer que ele não tinha a mais para se dizer marxista do que o tinha Newton para se dizer newtoniano” (p. 151). É que se trata de ciência, que é impessoal: é o espaço que é euclidiano, não o geômetra. 

Deixando de lado a análise da exploração capitalista, que hoje em dia teria somente de ser atualizada – mas seria necessário para tanto um novo Marx – e, portanto, deixando de lado o Marx sábio, eu me volto ao Marx filósofo. Mas ele é realmente um filósofo? “Os filósofos dedicaram-se somente a interpretar o mundo de diversas maneiras; o que importa é transformá-lo”, diz a tese XI das “Teses sobre Feuerbach”. Que seja preciso transformar o mundo, a injustiça e a desigualdade que nele reinam, tudo bem. Mas desde quando isso é o papel do filósofo? A filosofia se define como busca da verdade – não dessa ou daquela, mas da realidade em seu conjunto: o que, dessas verdades, é o Todo da realidade? É nesse sentido que o filósofo tem a paixão da verdade. E é essa a paixão de Marx? De modo algum – pois ele não pode esquecer os homens. A paixão de Marx é a paixão moral. Observem o que Hans Jonas escreveu: “É impossível imaginar Lênin, Trotsky, Rosa Luxemburgo sem um grau supremo de paixão – a paixão do bem que era objeto de suas visões: eles eram naturezas morais, voltadas a um fim trans-pessoal” (“O Princípio Responsabilidade”), Cerf, 1992, p. 162). Isso vale do mesmo modo para Marx. Pacifista, se eu mesmo sou uma “natureza moral” o sou antes no sentido kantiano. O pacifista “tem as mãos puras, mas não tem mãos”, dizia Péguy. Falso dilema, pois a escolha é: ter as mãos puras ou sangrentas. Eu recuso a violência, mesmo visando ao bem. Para falar como Sartre, os capitalistas são “sujos”. Que seja! Mas os filhos dos capitalistas são inocentes. 

Em vista do bem é preciso “revolucionar o mundo existente.” Para tanto, é preciso primeiro conhecer esse mundo. Daí vem a ciência do “Capital” - ciência comparável, diz Marx, não à física, mas à biologia. Contudo, o método são poderia ser experimental, a la Claude Bernard. É necessário um método que permita pensar um mundo, quer dizer, uma totalidade. É exatamente isso o que o método dialético de Hegel permite. É suficiente despojá-lo de sua carapaça mística, de distinguir nele seu fundo racional. Althusser erra ao querer caracterizar a especificidade da dialética com a ajuda de conceitos emprestados à psicanálise, onde eles designam mecanismos de elaboração do sonho. Mas ele tem razão quando diz que a dialética com que Marx opera “não retém essencialmente quaisquer dos conceitos hegelianos, nem a negatividade, nem a negação, nem a cisão, nem a negação da negação, nem a alienação, nem a superação” (“Pour Marx”, Maspero, 1966, p.223, nota 52). Decerto a contradição é “a fonte de toda dialética” (“O Capital”, Editions Sociales, T. III, p. 37, nota 2); mas por contradição aqui é preciso entender simplesmente a unidade dos contrários e, no “Capital” Marx pensa em termos de unidade de contrários: não em termos hegelianos, mas heraclitianos. Marx nos libertou de Hegel: sem ele, Nietzsche, Bergson teriam sido possíveis?

O que significa passar de Hegel a Heráclito, do idealismo especulativo ao naturalismo? Significa cessar de usar a dialética para escamotear o tempo. Porque o tempo não é superável: não se o escamoteia. O movimento do pensamento não deve ser absolutizado, como em Hegel, onde ele se torna “o demiurgo da realidade”: ele não é, em sua realidade, senão a “reflexão do movimento real”. Por movimento real é preciso entender: movimento que implica o tempo – um tempo histórico. Em Hegel, o movimento real não ocorre na Enciclopédia, mas com a “História Universal”. Assim, o movimento real não é essencial à dialética. É somente na história universal que a dialética se entronca com o movimento real. Mas, não sendo a história universal senão um momento, é superada. E nisso reside a diferença radical com Marx: em Hegel, a História é justificada e superada; em Marx, não há superação da História. Isso quer dizer que não há “um sentido na história” já encerrado na Idéia eterna. 

Em Hegel, o movimento é superado, pois a Causa do movimento é, como em Aristóteles, a Idéia eterna. Em Marx, não há outras causas que não as contradições inerentes às formas existentes e o movimento não é superado. Como o movimento está ligado à contradição, isso quer dizer que esta não é superável. Todas as contradições particulares são superáveis, mas a contradição como tal não o é. Como em Heráclito, onde o devir não é superável, sempre houve e haverá movimento, e nada mais: aparecimento e desaparecimento perpétuos das formas. Só resta à dialética as coisas finitas: só há finitos – e essa é a essência do materialismo, segundo Hegel. 

A dialética significa, em Marx, a auto-supressão daquilo que é. Daí que não há nada de absoluto, nada que seja imune à instabilidade e que não venha a desaparecer. Em particular, o modo de produção capitalista não poderia ser considerado, a exemplo de Ricardo, como um absoluto. A lei da queda tendencial da taxa de lucro o mostra, criando seu próprio limite. Essa limitação testemunha “o caráter limitado e puramente histórico, transitório, do sistema de produção capitalista” (“O Capital”, Editions Sociales, T. VI, p.255). O modo de produção capitalista suprime a si mesmo, cria ele mesmo as condições de um modo de produção “superior” (p. 271). A substituição de um certo modo de produção por um outro, esse é o sentido aproximado da história que vivemos. E não há outro sentido senão o aproximado. A história não é finalista, ela não tem um sentido geral definido anteriormente, pois dedução alguma pode substituir a história real. A dialética vai do abstrato ao concreto, mas o concreto é “o verdadeiro ponto de partida”: ela portanto não teria nada a ver com o concreto que será mas ainda não o é. Ela nos dá a inteligência da história em sua necessidade, mas [a necessidade] da história real, efetivada, não da história que ainda não é real. Ela não permite absolutamente a antecipação. Antecipar seria ainda um modo de escamotear o tempo. Ora, a dialética só tem sentido como reflexão do movimento real, o qual supõe a absoluta realidade do tempo. 

Não há disso tudo nada que não me pareça justo. Seria o caso de me chamar materialista? Não me sinto inclinado a tanto. Naturalista, sim; materialista, não. Pois eu filosofo a partir do que se mostra, do que se oferece a mim. Ora, o que se oferece a mim é a Natureza, não a matéria. A Natureza é um dado, não um conceito: a matéria é um conceito, não um dado. A Natureza está aí tanto como um Todo infinito. Isso é claro para aqueles que, a exemplo de Pascal ou de Spinoza, sabem chegar, aquém das evidências comuns, a uma evidência primeira, mais imediata. E o naturalismo espontâneo se confirma pela reflexão. Nele não pode haver senão finitos (seres finitos). O finito pressupõe o infinito... Mas eu não posso me engajar aqui na querela do infinito atual. 

O que me deixa reservado e distante do nível materialista é ainda isto. O materialismo marxista é uma filosofia reativa e uma filosofia de combate. Por isso mesmo, resta numa dependência daquilo a que se opõe. Marx filósofo gasta muita energia criticando os outros – Hegel, Feuerbach, Bruno Bauer, Max Stirner, etc. Por que ele não se dedica às coisas mesmas, em vez de deixá-las nos livros? É isso o que ele faz na Economia, onde se trata, é verdade, de ciência, não de interpretação. Por sua dependência do seu passado e de seu inimigo, o idealismo, o materialismo de Marx é uma filosofia que olha para trás. Qual a filosofia para o amanhã? Porque a Natureza é unicamente o que se oferece a todos os homens, seria uma filosofia da Natureza. Marx a tornou possível ao nos libertar de Hegel (para quem a filosofia “da Natureza” só existe no título).

Marcel Conche é professor emérito da Sorbonne.

Tradução: Katarina Peixoto

domingo, 10 de janeiro de 2010

SILVIO TENDLER: Anistia x Impunidade





 Sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010, 12:05

Amigos




O cineasta Sílvio Tendler, diretor dos filmes Jango, Os anos Jk, Marighella, 
Anos Rebeldes, Glaúber, o filme Labirinto do Basil,  o recente ainda a ser 
lançado "Utopia & Barbárie" e vários outros escreveu uma carta ao ministro 
Nelson Jobim. Vale a pena ler.Além de um belissimo texto, é um documento 
histórico. 
Boa leitura! 
POR FAVOR, EM NOME DA DEMOCRACIA, REPASSE AOS SEUS AMIGOS! 
Abraços 
Risomar 





Escrevi uma carta endereçada ao Ministro Nelson Jobim, da defesa, mas
assunto de transcendente importância, torno pública. O Globo de hoje,
por problemas de espaço publicou uma versão resumida. repasso na
íntegra
Abraços Silvio Tendler 






Ao Ministro da Defesa 
Exmo. Dr. Nelson Jobim 




Invado sua caixa de mensagem pedindo atenção para um tema que trata do
futuro, não do  passado. O Sr. me conhece pessoalmente e lembra-se de
que quando fui Secretário de Cultura de Brasília, no ano de 1996, o
Sr. era Ministro da Justiça e instituiu e deu no Festival de Cinema
Brasília um prêmio para o Filme que melhor abordasse a questão dos
Direitos Humanos. Era uma preocupação comum a nossa.




Por que me dirijo agora ao senhor? Um punhado de cidadãos, hoje
somos mais de dez mil, assinamos um manifesto afirmando que os
envolvidos em crimes de tortura em nome do Estado Brasileiro devem ser
julgados e punidos por seus atos, contrários aos mais elementares
sentimentos da nacionalidade. Agimos em nome da intransigente defesa
dos direitos humanos.




O Sr., Ministro da Defesa, homem comprometido com a ordem democrática,
eminente advogado constitucionalista, um dos redatores e subscritores
da Constituição de 1988, hoje  em ação concertada com os comandantes
das forças armadas, condena a iniciativa de punir torturadores pelos
crimes que cometeram.




Este gesto, na prática, resulta em dar proteção a bandidos que
desonraram a farda que vestiam ao torturar, estuprar, roubar,
enriquecer ilicitamente sempre agindo em nome das instituições que
juraram defender.




É incompreensível que o nosso futuro democrático seja posto em risco
para acobertar crimes praticados por bandidos o que reforça a sensação
de impunidade. Ao contrário do que afirmam os defensores da impunidade
dos torturadores.




O que está em juizo não é o julgamento das forças armadas, como
afirmam os que as querem arrastar para o lodo moral que mergulharam.
Agora pretendem proteger sua impunidade, camuflados corporativamente
em nome da honra da instituição.
Um pouco de história não faz mal a ninguém. Não está em questão que
para consumar o golpe de 64, os chefes militares de então tiveram  que
expurgar das forças armadas milhares de homens entre oficiais,
sub-oficiais e praças cujo único crime foi defender o regime
constitucional do país. Afastaram da vida política brasileira
expressivas lideranças, cassando direitos políticos e mandatos
parlamentares ou sindicais. Empurraram milhares de cidadãos, na imensa
maioria jovens,  para a ação clandestina que desembocou na luta
armada.




De qualquer maneira os golpistas de 64 protegidos pela lei de anistia
não serão anistiados pela história. Fecharam e cercaram o Congresso
Nacional. Inventaram a excrescência chamada de Senador Biônico para
não perder, pelo voto, o controle do Senado em plena ditadura militar.




Os chefes militares podem ficar tranqüilos que seus antecessores não
irão para a cadeia pelos crimes que cometeram contra um país, contra
uma geração inteira, a minha, que desaprendeu a falar e pensar em
liberdade.




Nada disso está em juízo. Vinte e cinco anos depois de iniciada a
transição democrática, o que está em juízo não é o processo de anistia
política. Tranqüilize seus colegas militares, ministro.




O regime militar não está sendo julgado pela quebra do sistema público
de saúde ou pela quebra do sistema educacional. Estamos pedindo a
punição contra criminosos comuns  por crimes de lesa humanidade.




Queremos o julgamento e condenação da prática de crimes hediondos. Só
isso. Assusta a quem? Em nome do quê o Brasil será eternamente refém
de bandidos? O que justifica acobertar crimes condenados por todos os
códigos, normas e tribunais internacionais em matéria de direitos
humanos?




O Sr. deve estar se perguntando o porquê do meu empenho nesta causa.
Vou lhe contar. Despontei pra a vida adulta baixo a ditadura  militar.
Em 1964, tinha 14 anos e cresci sob o signo do medo. Sou de uma
família de judeus liberais, meu pai advogado e minha mãe médica.
Invoco as raízes judaicas porque meus pais eram muito marcados pelo
holocausto, pelos crimes nazistas cometidos contra a humanidade.
Tínhamos muito medo das soluções autoritárias.




Eu queria viver num país livre e tinha sentimentos de profunda
repugnância a ditaduras. Meus amigos também eram assim. Participei de
passeatas, diretórios estudantis e cineclubes. Queria derrubar a
ditadura fazendo filmes. Acreditava que era possível. Em 1969, um
companheiro de Cineclubismo seqüestrou um avião para Cuba. Não tive
nada a ver com isso. Desconhecia as intenções e a organização do
seqüestro.




Meu crime foi ser amigo - sim, meu crime foi o de ser amigo de um
seqüestrador. Quase fui preso e morreria na tortura sem falar, não por
ato de bravura, mas por absoluto desconhecimento de causa. Não
pertencia a nenhuma organização revolucionária. Não sabia nada sobre o
seqüestro.




Escapei dessa situação pala coragem pessoal de minha mãe que driblou
os imbecis fardados que foram me prender e consegui fugir de casa nas
barbas da turma do Ministério da Aeronáutica que, naquele momento, ao
invés de dedicar-se a cumprir sua missão constitucional de proteger
nossas fronteiras, prendiam, torturavam e matavam estudantes. Tive
também a ajuda do Coronel Aviador Afrânio Aguiar que empenhou-se até a
medula para que não fosse preso e massacrado na Aeronáutica. A ele
dedico meu filme mais recente Utopia e Barbárie. Sem ele, dificilmente
estaria contando essa história hoje aqui.  Outras pessoas também me
ajudaram a sair vivo dessa história mas como não tenho autorização
para citá-los e estão vivos, guardo nomes e lembranças no coração.




Em 1970 fui viver no Chile por livre e espontânea vontade. Saí do
Brasil legalmente com passaporte, ainda que tenha ido ao DOPS explicar
por que saía do Brasil. Eles sabiam  as razões pelas quais saía (como
é cantado na música, "Não queria morrer de susto, bala ou vício"). Em
Janeiro de 1971,do Chile, mandei uma carta para minha mãe, trazida por
uma portadora, senhora de boa cepa, que fora visitar o filho no exílio
em um gesto humanitário se ofereceu, ingenuamente, para trazer
correspondência para os familiares dos exilados . O gesto lhe custou
prisão e "maus tratos" nas dependências da aeronáutica.




Na carta pedia a minha mãe que me enviasse livros e minha máquina de
escrever. A carta foi entregue em Copacabana por militares do Dói-Codi
que arrombaram minha casa, arrombaram móveis a procura de metralhadora
(Assim entenderam "máquina de escrever"). Minha mãe foi levada para o
quartel da PE na Barão de Mesquita, onde foi humilhada e um dos
"patriotas"que a conduziu assumiu de forma permanente a guarda do
relógio que  entrou com ela na PE e não voltou para casa.




Amigos ocultos  numa rede de gente decente ajudaram a tirar minha mãe
daquela filial verde oliva do inferno. Sim ministro, havia muita gente
decente nas forças armadas ou que gravitavam em torno dela e que
faziam o que podiam para ajudar pessoas. A maioria, prefere, até hoje,
não revelar seus gestos por medo dos que praticando atos dignos dos
piores momentos da máfia intimidam e atemorizam pessoas de bem. Pior
do que o relógio foi o destino do ex-deputado Rubens Paiva que foi
preso no mesmo dia e nunca mais encontrado.




Os senhores fazem muita questão mesmo de proteger os canalhas que
seqüestraram e assassinaram o ex-deputado pelo crime de ter recebido
correspondência pessoal de exilados no Chile? A quem interessa essa
"Omertá"? Ministro, para esses crimes não há justificativa e menos
justificativa para o acobertamento dos criminosos.




O que leva a chefes militares e o Ministro da Defesa a se pronunciarem
contra a apuração de crimes? Tortura, estupro, morte, muitas vezes
seguido de roubo, são atos políticos passíveis de anistia?




Desculpe a franqueza, mas não consigo entender. Em nome do futuro
democrático do Brasil , espero que a banda podre, montada no Dragão da
Maldade, não saia vitoriosa.
- Mostrar texto das mensagens anteriores -




Os chefes militares pronunciam-se a favor do pagamento de reparações
às vitimas do arbítrio como um ato indenizatório. Pagamento este feito
com recursos públicos desviado de finalidades mais nobres para
ressarcir prejuízos causados por canalhas que deveriam ter seus bens
confiscados  e pagarem com recursos próprios os crimes que cometeram.
Muitas empresas que se locupletaram durante a ditadura e inclusive
financiaram o aparato repressivo poderiam participar dessas
indenizações




No meu caso, ministro, posso lhe dizer que não há dinheiro que feche
essa conta. Não pedi anistia nem indenização porque acho que não sou
merecedor (nunca fui exilado, nunca me apresentei assim). E vivo bem
com meu trabalho de cineasta há quarenta anos e professor
universitário há 31. Se fosse  pago com recursos  dos bandidos,
aceitaria de bom grado. Recursos públicos não.




Cada centavo que aceitasse, me sentiria roubando de uma criança ou de
um homem ou uma mulher humildes que precisam mais desse dinheiro numa
escola pública, num posto médico, do que eu. Não recrimino quem, por
necessidade ou sentimento de justiça, o faça. A reparação que peço é a
punição exemplar dos torturadores da minha mãe. O senhor há de
concordar que não estou pedindo muito nem nada despropositado.  E
quando digo que penso no futuro e não no passado é porque a punição
exemplar de criminosos  desestimulará semelhantes práticas no futuro e
terá uma função pedagógica para os que caiam em tentação de uso
indevido dos poderes do Estado, que entendam que não vivemos no país
da impunidade.



Justiça, peço apenas justiça.
Bom 2010 para o sr.
Atenciosamente
Silvio Tendler



P.S. 
Falamos de tanta coisa mas esquecemos de comentar dois crimes
cometidos depois de 1979 que já não estariam cobertos pela lei de
anistia: O assassinato de D. Lyda Monteiro da Silva, secretaria do
Presidente da OAB e a mutilação do jornalista José Ribamar em 1980 e em
1981a bomba que explodiu no Riocentro que causou a morte de um sargento e
graves ferimento no Capitão.




Imagino que enquanto advogado, o quanto lhe repugna o assassinato da
secretária do Presidente da OAB e a mutilação de um jornalista. Tantos
anos decorridos talvez ainda seja possível descobrir "os comunistas"
responsáveis pela bomba do Riocentro, como concluiu o vexaminoso IPM
instaurado na ocasião.




Por falar em comunistas, movimento que condenava a luta armada, o que dizer
do assassinato do jornalista Wladimir Herzog, do operário Manoel Fiel Filho
e do desaparecimento do dirigente Davi Capistrano?
Seus assassinos terão imagem, nome e sobrenome ou continuarão
protegidos por este exército das sombras?

sábado, 9 de janeiro de 2010

A mídia golpista brasileira



Palestra do jornalista Paulo Henrique Amorim
Sugiro assistir e divulgar !

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A mídia golpista brasileira, a Confecom  e o futuro da comunicão no
Brasil -
Palestra do jornalista Paulo Henrique Amorim
Palestra de Paulo Henrique Amorim  - 1 Parte
http://www.youtube.com/watch?v=BM99kvcc6NQ
Palestra de Paulo Henrique Amorim - 2 Parte
http://www.youtube.com/watch?v=LcWU9RLSj9M
Palestra de Paulo Henrique Amorim - 3 Parte
http://www.youtube.com/watch?v=PeC0tiIC5Wg
Palestra de Paulo Henrique Amorim - 4 parte
http://www.youtube.com/watch?v=98P9VAY15u0