sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Do Estadão


Curso ‘esconde’ valor de material na mensalidade

Aluno de escola de idiomas e informática só descobre armadilha ao desistir e ficar com a dívida, alerta Idec
Luciana Alvarez
Com preços de R$ 150 por mês, as ofertas de cursos de informática e idiomas da escola Microcamp escondem uma armadilha. Segundo levantamento do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) e denúncias de ex-alunos, os vendedores não avisam que, no contrato, a mensalidade é composta por dois valores – R$ 32 referentes ao curso e R$ 128, do material. Dessa forma, se desistir das aulas, o estudante terá de pagar, além da multa de rescisão, o valor que falta para quitar o material.
O levamento com as principais escolas de línguas e de informática de São Paulo constatou que a maioria informa corretamente os valores do material, mas muitas obrigam os alunos a comprá-lo – não se pode aproveitar livros usados. Outras cobram multas de até 20% por rescisão de contrato. O Idec considera que é direito do consumidor aproveitar livros usados e diz que 10% do valor que falta para ser pago é o limite para a multa.
A reportagem telefonou para uma unidade da Microcamp e recebeu informações sobre o valor total como se fosse apenas o do curso. Em um ano, o grupo teve 597 queixas abertas nos Procons só no Estado de São Paulo, onde existem 102 unidades. A empresa diz que seu contrato é legal e informa que há, em todas as escolas, avisos com um número 0800 para que, em caso dúvidas, o aluno possa recorrer à matriz.
DÍVIDA PARCELADA
O industriário Paulo Correa cursou por três meses inglês na Microcamp, mas ficou insatisfeito e pediu o cancelamento do contrato. Foi então que descobriu que teria de pagar multa e material. Ele entrou em negociação com a empresa e conseguiu reduzir o valor para R$ 1,2 mil e parcelá-lo até agosto. Mas continua insatisfeito. “Na hora da venda, o atendente me disse que o material era gratuito.”
Segundo o Idec, a empresa tem o dever de cumprir o que foi prometido pelo vendedor, mesmo que não esteja em contrato. “O código de defesa do consumidor diz que todas as informações, incluindo as verbais, fazem parte do contrato”, afirmou Alessandro Gianeli, advogado do Idec. Ele recomenda que os consumidores que se sentirem enganados tentem primeiro negociar com a empresa e, se não houver acerto, procurem o Procon.
Foi o que fez ontem Maria Aparecida Alves da Silva, que tem dois filhos matriculados na Microcamp. Um deles começou a estudar na escola, mas ficou insatisfeito antes que as aulas do segundo começassem. Por isso, desistiu da matrícula e agora briga para conseguir o reembolso pelo material que nem foi utilizado. “Querem cobrar 15% do valor total dos livros, mas não vou pagar.”
“Toda a informação tem de ser muito clara antes da contratação”, diz o diretor do Procon Paulo Arthur Goes. “Também precisamos observar a natureza do contrato, porque ninguém se matricula em um curso para comprar livros. O material tem caráter acessório.”
FIQUE ATENTO
Contrato: O interessado deve verificar se as promessas dos vendedores estão escritas no contrato
Material: O valor deve ser apresentado separadamente. O Idec diz o aluno tem direito de reaproveitar materiais usados
Cancelamento: O cliente deve ser informado sobre a existência de multa caso desista do curso
Problemas: Primeiro deve-se negociar com a empresa e, se não houver acordo, procurar o Procon

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Do Digestivo Cultural

Julio Daio Borges



Além do Mais >>> Além do Mais e Outras Artes em 2000-2009
A década começaria, politicamente, com a eleição de Lula. Também com a Copa de 2002 e o Pentacampeonato. Já São Paulo comemoraria 450 anos e ganharia um "biografia" de Roberto Pompeu de Toledo. 1964, o ano que marcara o início da ditadura militar, faria 40 anos (1968, "o que não terminou", também). E a Casa do Saber - lançando a moda dos "cursos livres" - principiaria suas atividades... (O Espaço Cultural CPFL, em Campinas, não ficaria atrás.) E, mais uma vez, humanistas dariam lugar a cientistas, como Steven Pinker e Richard Dawkins - que de biólogo evolucionista seria alçado à categoria de "guia espiritual". Em meados da década, estouraria o escândalo do Mensalão, por obra e graça de Roberto Jefferson - o que não impediria a reeleição de Lula em 2006, mas que tiraria petistas históricos, momentaneamente, do jogo (como José Dirceu, José Genoino e Luiz Gushiken). Já no final da década, umacrise mundial se anunciaria, mas - literalmente na contramão da História - o Brasil confirmaria a profecia dos BRICs, recuperando-se mais rápido que os demais países (inclusive, que os Estados Unidos), forjando uma "nova classe média" e ganhando o direito de sediar uma Copa e uma Olimpíada. Ainda na mesma década, a cidade de São Paulo ganharia espaços artísticos como o Pintar! e retrospectivas de artistas como Aldemir MartinsIanelli (ambos faleceriam antes de 2010) e Henry Moore (na Pinacoteca). A editora 34 igualmente nos prestaria um belo serviço, com sua coleção A pintura - Textos essenciais (coordenada por Jacqueline Lichtenstein). Já no "underground", Crumb produziria como ninguém(sendo editado, vigorosamente, por aqui); e, entre os brasileiros, surgiria uma nova geração de artistas do traço e/ou humoristas como Allan SieberAndré DahmerWagner Martins e - last but not least - Rafael Sica. O teatro perderia Paulo Autran e Gianni Ratto. E quase perderiaMário Bortolotto, um dos maiores renovadores da cena teatral paulistana, num assalto. Celso Frateschi se dividiria entre o Ágora, a política e a televisão. Enquanto Jairo Matos, injustamente, não ascenderia como Dan Stulbach. (Possolo seguiria firme junto com os Parlapatões...) A televisão faria 50 anos, no início da década, mas, lamentavelmente, acabaria se rendendo aos reality showsO VMB faria 10 anos nos 2000, o Roda Viva, 18, e a TV Cultura, 40. O Manhattan Connection tentaria preencher a vaga de Paulo Francis inutilmente, com Arnaldo Jabor e Diogo Mainardi; e, no final da década, perderia Lúcia Guimarães (para o Saia Justa). Bia Corrêa do Lago seguiria com as melhores entrevistas literárias da TV. A chamada "TV a cabo", porém, não cumpriria suas promessas e passaria por maus bocados. No reino da gastronomia, a ascensão inquestionável seria de Alex Atala, que passaria de um mero "potencial" a uma promessa reconhecida por ninguém menos que Ferran Adrià. Aliás, a década seria mais dos chefs que dos restaurateurs (provocando, às vezes, a ira destes últimos). Em termos de business, um dos cases da década seria, certamente, o do Fogo de Chão e sua expansão internacional (que receberia o impulso do Grupo GP). Para um começo de milênio, culturalmente - por mais que se diga o contrário - foi uma década movimentada. ;-)

Do Carta Maior


DEBATE ABERTO
Fernando Henrique Cardoso precisa de amigos
Isso é FHC. A exigência egóica de ser admirado o torna, paradoxalmente, um líder sem liderados. Para quem acredita que fez um grande favor ao mundo nascendo, sua irritabilidade é permanente e justificada.
Em seu texto “Luto e Melancolia", Freud diz que manifestações melancólicas assumem várias formas clínicas, se caracterizando, entre outros sintomas, "por uma depressão profundamente dolorosa, uma suspensão do interesse pelo mundo externo, diminuição do sentimento de auto-estima e inibição de todas as atividades." A identificação com o objeto perdido é inevitável e, na medida em que não consegue incorporação simbólica, o que sobra ao sujeito é a identificação com o vazio de um pai ausente. 

Se a psicanálise sofre hoje contestações de diferentes ordens, as palavras do seu criador sobre o comportamento melancólico se encaixam como uma luva para o amontoado de sandices que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso escreveu e disse no último domingo, 7/02, tentando deter e repudiar a impopularidade que o persegue desde o segundo mandato. 

Há alguns anos, Carlos Heitor Cony, em artigo na Folha de São Paulo, não poupou palavras para melhor definir o “príncipe dos sociólogos: "Diziam seus admiradores que FHC era uma cabeça, um intelectual, um produtor de coisas inteligentes. Sua exposição no cargo mais alto do país rebaixou-o à dimensão de um demagogo banal, incapaz de articular um argumento alem do insulto aos que não acreditam nele e o acusam inclusive de improbidade." 

Isso é FHC. A exigência egóica de ser admirado o torna, paradoxalmente, um líder sem liderados. Um prócer a ser evitado em anos eleitorais. Para quem acredita que fez um grande favor ao mundo nascendo, sua irritabilidade é permanente e justificada. Afinal, deve ser duro para quem esteve no poder durante oito anos, constatar que o resto do mundo político não reconhece sua importância. Pior, o que ganha realce são os erros grosseiros de um dirigente que governou de acordo com os humores do capital financeiro.

Seu governo passou para a história como um modelo que acentuava a exclusão social e penalizava as classes de menor renda. A estratégia de estabilização de preços baseada na captação de capital externo de curto prazo, através da sobrevalorização da moeda e da manutenção de elevadas taxas de juros, levou o país a níveis de desemprego sem precedentes, à desarticulação da estrutura produtiva e à deterioração do tecido social no campo e na cidade. 

O mau desempenho do comércio brasileiro na época foi minuciosamente construído pela equipe de FHC que, realizando uma abertura irresponsável da economia, pôs em prática políticas monetárias e cambiais que minaram em grande parte nossa capacidade de competição internacional. 

Mostrando a miopia fiscalista que o orienta até hoje, Cardoso escreveu em seu artigo (“Sem medo do passado”), publicado no Globo: "Esqueceu-se [Lula] dos ganhos que a privatização do sistema Telebrás trouxe para o povo brasileiro, com a democratização do acesso à internet e aos celulares, do fato de que a Vale privatizada paga mais impostos ao governo do que este jamais recebeu em dividendos quando a empresa era estatal." 

A entrega do patrimônio público ainda é apresentada como fórmula eficaz de fazer caixa. O que FHC faz questão de esquecer faz parte de sua história: grande parte do programa de privatização brasileiro foi financiada pelo BNDES. No cassino tucano, muitas empresas privatizadas não queriam fazer investimento aqui e se aproveitavam de polpudos créditos que também beneficiavam transnacionais já instaladas no país. O argumento utilizado era o de que a vinda desses setores permitiria agregar elementos de financiamento ao desenvolvimento nacional. 

Quando se lê um artigo assim, descontextualizado, mal costurado em seus argumentos, é que nos damos contas da importância de olhar pelo retrovisor. É ele que sinaliza as perspectivas do futuro. Nesse ponto, o texto de Cardoso é didático, quase leitura obrigatória. 

FHC sabe que a grande mídia corporativa exercerá o prestimoso papel de guiar suas mãos na hora de legitimar a irrelevância dos seus escritos. Somente os exércitos de colunistas destacados pelas famílias que controlam os meios de comunicação garantem sua vida política vegetativa. 

Quando compara a ministra Dilma Rousseff a um boneco manipulado pelo presidente Lula não faz qualquer ponderação política, apenas evidencia que sua cabeça está longe de ser privilegiada. É uma mente que destila bile (que está na raiz da palavra melancolia) para desqualificar seus adversários. É o menestrel da política pequena buscando a facilidade da ribalta midiática. 

Antes de dizer que “o PT “tenta desconstruir o seu mandato”, o ”príncipe” deveria dedicar mais tempo à leitura do que andaram falando sobre seu governo as principais lideranças do seu partido, em especial o governador de São Paulo. Uma boa sugestão seria o livro “Conversas com Economistas Brasileiros II", que a Editora 34 lançou em 1999. Lá ele encontraria o seguinte trecho: 

“A política cambial do primeiro governo Fernando Henrique Cardoso foi um desastre gratuito e total. Foi resultado de pouca reflexão analítica de seus condutores. Suas conseqüências foram devastadoras em muitas áreas da economia, inclusive comprometendo as metas fixadas no processo de privatização."

Essa crítica, das mais contundentes feitas por um economista que participou dos dois mandatos do governo FHC, é de José Serra em entrevista a dois professores da FGV, Guido Mantega e José Márcio Rego. E agora, quem é o boneco de quem? Nem mesmo um governador que submergiu com as enchentes em São Paulo, levando com ele a suposta capacidade gerencial do tucanato, pôde endossar a política arrasada do ex-presidente. O que esperar da oposição? A compaixão que deve ser concedida aos incapazes?

As palavras do ex-presidente devem ser vistas como movimentos de descompressão da realidade. Quando, a partir da melancolia e solidão de sua maturidade, um ator político faz a volta à infância, o ridículo se apodera do cenário. Fernando Henrique precisa de amigos.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Twittado por @ZildaArnsinMemo

Lágrima de preta
Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Entrevista de Fernando Haddad, à "Folha"

Extraído do site do Ministério do Planejamento,Orçamento e Gestão

Entrevista da 2ª - Fernando Haddad: Para ministro da Educação, crise no Enem foi "trauma"

Ministro admite trauma com Enem e descarta candidatura
Autor(es): ANTÔNIO GOIS e ANGELA PINHO
Folha de S. Paulo - 08/02/2010
 
Titular da Educação defende que Mercadante seja o nome do PT para o governo de SP 
Após o "trauma bastante violento" devido ao vazamento do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) em 2009 -do qual o Ministério da Educação ainda se recupera-, o ministro Fernando Haddad admitiu erros no processo de licitação, mas defendeu o novo formato da prova. Passado o período crítico, ele falou à Folha também sobre seu futuro político, negando a possibilidade de disputar o governo de São Paulo.
Para ele, o PT paulista errou, nas sete últimas eleições estaduais, ao ter tido sete candidatos diferentes, o que dificultou a consolidação de uma liderança. Além disso, diz, a possibilidade de o deputado Ciro Gomes (PSB-CE) ser o candidato petista em São Paulo seria fruto mais da conjuntura nacional -para consolidar Dilma Rousseff- do que da local.
O ministro, que também é professor de ciência política da USP, afirmou que, do ponto de vista da opinião pública, não há mais partido que tenha imagem associada à ética. O problema, diz, só será resolvido com uma reforma política.
A respeito do desgaste de sua imagem no ministério, Haddad disse que não se preocupava com isso, mas acha que não é tão grande, pois, segundo a mais recente pesquisa do Datafolha, a educação foi a área mais bem avaliada do governo.
Ainda sobre o Enem, afirmou que foi pego de surpresa com a vitória de um consórcio menos experiente para a distribuição das provas e reiterou que, para este ano, está discutindo com os órgãos de controle a ausência de licitação em favor do consórcio Cespe/Unb e da Cesgranrio e a realização de duas edições do exame.
 
FOLHA - A imagem que muitos ficaram do Enem foi de um processo caótico. Alunos foram alocados em locais distantes de casa e a prova vazou, entre outros problemas. Qual é a sua leitura do episódio?
FERNANDO HADDAD 
- Superamos a forma de seleção nos países desenvolvidos. Em países como os Estados Unidos, o estudante pleiteia a vaga na universidade conhecendo o seu desempenho por exames nacionais. Com o Enem, ele escolhe sabendo não só o seu desempenho, mas também o de seus concorrentes.
Tanto a forma da nova prova como o aplicativo de distribuição das vagas compensam as dificuldades decorrentes do furto da prova, que foi um trauma bastante violento para o Inep [Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas], do qual ele está se recuperando só agora.
FOLHA - A imagem do sr. como gestor não foi abalada?
HADDAD
 - Não cabe a mim nem me preocupar com isso. Enfrentamos um debate duro com o sistema S, lançamos indicadores de qualidade por escola, enfrentamos um debate com a área econômica para acabar com a DRU para a educação [Desvinculação de Receitas da União, que retirava recursos da educação para o governo gastar em outras áreas]. Tudo isso podia ter arranhado a imagem de quem quer que seja. Mas só me pautei pelo que deve ser feito e muitas vezes enfrentei problemas que exigem uma certa ousadia, que não era bem o perfil dos dirigentes do MEC.
FOLHA - Que autocrítica faz?
HADDAD 
- Muitas vezes, tem-se um temor reverencial em relação aos órgãos de controle. Se tivéssemos enfrentado o debate junto a eles demonstrando que um exame dessa natureza não pode correr o risco de uma licitação por menor preço, teríamos sensibilizado. Mas se contou com a tradição: sempre se fez licitação e sempre Cespe e Cesgranrio ganharam porque não há outras instituições capazes de realizar o exame. Quando viu a surpresa, o Inep não estava preparado para o embate jurídico do surgimento de um "player" [o consórcio Connasel] que cumpria os requisitos do edital, mas estava evidentemente despreparado para a sua realização.
FOLHA - Mas já durante a licitação surgiram críticas de que a mudança do Enem estava sendo feita de forma muito rápida.
HADDAD 
- Foi o quinto Enem com mais de 3 milhões de inscritos e, na minha opinião, não teria ocorrido nenhum problema significativo se Cespe e Cesgranrio tivessem feito.
FOLHA - Mas alguns problemas não tiveram relação direta com o furto da prova. Os gabaritos foram divulgados com erro, e o Sisu (sistema que seleciona alunos do Enem para universidades federais) ficou horas fora do ar, por exemplo.
HADDAD 
- No caso do Sisu, um milhão de pessoas navegaram pelo sistema durante os seis dias que ele operou. Houve uma questão técnica no primeiro dia que foi superada. É que, depois do furto, tudo ganha relevo muito maior. Mas sempre há ocorrências.
FOLHA - O Inep não falhou no acompanhamento do contrato? A auditoria interna aponta que os problemas de segurança foram comunicados verbalmente ao consórcio.
HADDAD 
- Do meu ponto de vista, o maior responsável é o consórcio, que assinou um contrato se responsabilizando pela segurança da prova. Possivelmente houve erros da gráfica e pode ter havido problemas de acompanhamento da impressão. O fato é que o furto foi filmado e não havia ninguém atrás do monitor para impedir.
FOLHA - O que vai mudar no Enem?
HADDAD 
- Estou na dependência das negociações que estão sendo feitas entre o Inep e os órgãos de controle. Não podemos tomar essa decisão sem ter a segurança de que não haverá objeção ao contrato com o Cespe. Esse é o entendimento que está sendo construído, com boas chances de uma solução definitiva para o modelo de contratação dos exames que certificam e selecionam.
FOLHA - O sr. sai do MEC em abril para ser candidato?
HADDAD 
- O presidente Lula, já reeleito, em novembro de 2006 me disse três coisas: você permanece ministro, eu quero em 60 dias um plano de educação na minha mesa com o compromisso de que você permaneça até o final do segundo mandato. De lá para cá, não conversamos mais sobre esse assunto.
FOLHA - A longo prazo, o sr. não pensa em cargo no Legislativo ou no Executivo?
HADDAD 
- Realmente não. Estou sendo muito sincero.
FOLHA - Onde estará em 1º de janeiro de 2011?
HADDAD 
- Provavelmente em São Paulo, me apresentando no departamento de Ciência Política da USP.
FOLHA - Um dos nomes mais prováveis do PT para a disputa do governo de São Paulo, o senador Aloizio Mercadante tem contra si ainda a lembrança dos "aloprados", em 2006, quando um coordenador da campanha dele foi flagrado negociando um dossiê contra tucanos. O sr. não considera um risco trazer este tema de novo para a campanha?
HADDAD 
- Eu não tenho esse diagnóstico. O senador Aloizio Mercadante, mesmo após aquele episódio que confundiu a opinião pública, teve um percentual considerável de votos, o que o credencia tanto à reeleição no Senado quanto à disputa para o governo do Estado [Mercadante teve 31,7% dos votos no primeiro turno, contra 57,9% de José Serra].
FOLHA - Ele é o seu candidato?
HADDAD 
- Quando fui consultado, eu disse duas coisas. A primeira, que considerava um equívoco o PT, em sete eleições, ter lançado sete nomes diferentes. Foi um argumento que o próprio presidente sublinhou. E, em segundo, [seria um equívoco] não considerar a hipótese de neste momento repetir o nome do senador, que teve um desempenho interessante na última eleição.
FOLHA - O sr. participaria de um eventual governo da Dilma?
HADDAD 
- Considero problemática qualquer manifestação nesse sentido porque a pessoa que assume a Presidência tem de ter total liberdade para montar sua equipe. Quando você assume que participaria, cria um constrangimento desnecessário e indevido. Considero que aqueles que participaram do governo Lula devem planejar suas vidas fora do governo.
FOLHA - Já está claro que o sr. apoia Mercadante. Quais são os prós e contras de outros nomes, como a ex-prefeita Marta Suplicy?
HADDAD 
- Eu entendo que os dois são os nomes mais viáveis do partido, com vantagem para o primeiro em função de ter disputado recentemente o governo do Estado, mas sem desapreço a outras postulações.
FOLHA - E Ciro Gomes? O fato de ele ser cogitado para candidato em São Paulo não revela a fragilidade do PT justamente no seu berço?
HADDAD 
- O Ciro é um grande quadro, o PSB é um partido cada vez mais próximo do PT, de maneira que em vários Estados o PT vai apoiar o PSB. Isso diz respeito muito mais ao cenário nacional que ao regional.
FOLHA - Dilma não está no PT desde a fundação e, em São Paulo, cogita-se Ciro. O partido perdeu a força?
HADDAD 
- A filiação da Dilma ao PT não é recente, e ela é egressa de um partido com laços históricos com o PT. Em segundo lugar, é preciso notar o desempenho da ministra Dilma durante o governo. Ela desatou nós muito interessantes no Ministério de Minas e Energia e na Casa Civil. E, por trás das medidas aparentemente administrativas que ela tomou, há uma visão de política pública do papel do Estado e do governo.
FOLHA - Mas o PT participou pouco da escolha dela como candidata.
HADDAD 
- É evidente que um dirigente como o presidente Lula, que concorreu a cinco eleições presidenciais e tem 83% de aprovação, terá um papel determinante na condução da sua sucessão.
FOLHA - Alguns cientistas políticos fazem a análise de que Lula ficou muito forte e o PT se enfraqueceu, perdendo quadros e sua imagem associada à ética. O que o sr. acha?
HADDAD 
- Talvez a questão que deveria ser respondida é como o Lula, em 2002, eleito por forças mais progressistas, fez um governo mais conservador do que em seu segundo mandato, em que ele foi eleito por uma coalizão mais conservadora. O segundo mandato avançou muito mais do ponto de vista de democratização do que o primeiro, do ponto de vista de direitos sociais.
FOLHA - E em relação à ética?
HADDAD 
- Ninguém está se saindo bem nesse quesito do ponto de vista de opinião pública, nem PT, nem PSDB, nem DEM. Não se trata de um pré-julgamento jurídico, mas de uma observação de caráter político. Ninguém se sai bem perante o eleitorado nessa questão, o que é muito ruim para a democracia porque o adiamento da reforma política já não se justifica em virtude do constrangimento que os próprios partidos estão passando perante a opinião pública.
FOLHA - Por que o primeiro mandato foi mais conservador do que o segundo?
HADDAD 
- Sobretudo a partir de 2005, o presidente se apropriou da máquina de maneira decisiva, a ponto de chamar a execução orçamentária para sua mesa. A partir de 2005, há uma mudança de comportamento e um arejamento para que novas ideias possam ser concebidas. O PDE (Plano de Desenvolvimento da Educação, lançado em 2007) e o PAC não seriam possíveis em 2003.
FOLHA - Por quê?
HADDAD 
- Não havia clima para grandes voos. Era um clima de constrangimento, de que qualquer alteração de rota poderia comprometer a estabilidade econômica e a sustentabilidade política. Aí essas hipóteses foram sendo testadas pelo presidente ao longo do tempo. E se verificou que na política tem muito tigre de papel.

Entrevista da 2ª - Fernando Haddad: Para ministro da Educação, crise no Enem foi "trauma"

Ministro admite trauma com Enem e descarta candidatura
Autor(es): ANTÔNIO GOIS e ANGELA PINHO
Folha de S. Paulo - 08/02/2010
 
Titular da Educação defende que Mercadante seja o nome do PT para o governo de SP 
Após o "trauma bastante violento" devido ao vazamento do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) em 2009 -do qual o Ministério da Educação ainda se recupera-, o ministro Fernando Haddad admitiu erros no processo de licitação, mas defendeu o novo formato da prova. Passado o período crítico, ele falou à Folha também sobre seu futuro político, negando a possibilidade de disputar o governo de São Paulo.
Para ele, o PT paulista errou, nas sete últimas eleições estaduais, ao ter tido sete candidatos diferentes, o que dificultou a consolidação de uma liderança. Além disso, diz, a possibilidade de o deputado Ciro Gomes (PSB-CE) ser o candidato petista em São Paulo seria fruto mais da conjuntura nacional -para consolidar Dilma Rousseff- do que da local.
O ministro, que também é professor de ciência política da USP, afirmou que, do ponto de vista da opinião pública, não há mais partido que tenha imagem associada à ética. O problema, diz, só será resolvido com uma reforma política.
A respeito do desgaste de sua imagem no ministério, Haddad disse que não se preocupava com isso, mas acha que não é tão grande, pois, segundo a mais recente pesquisa do Datafolha, a educação foi a área mais bem avaliada do governo.
Ainda sobre o Enem, afirmou que foi pego de surpresa com a vitória de um consórcio menos experiente para a distribuição das provas e reiterou que, para este ano, está discutindo com os órgãos de controle a ausência de licitação em favor do consórcio Cespe/Unb e da Cesgranrio e a realização de duas edições do exame.
 
FOLHA - A imagem que muitos ficaram do Enem foi de um processo caótico. Alunos foram alocados em locais distantes de casa e a prova vazou, entre outros problemas. Qual é a sua leitura do episódio?
FERNANDO HADDAD 
- Superamos a forma de seleção nos países desenvolvidos. Em países como os Estados Unidos, o estudante pleiteia a vaga na universidade conhecendo o seu desempenho por exames nacionais. Com o Enem, ele escolhe sabendo não só o seu desempenho, mas também o de seus concorrentes.
Tanto a forma da nova prova como o aplicativo de distribuição das vagas compensam as dificuldades decorrentes do furto da prova, que foi um trauma bastante violento para o Inep [Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas], do qual ele está se recuperando só agora.
FOLHA - A imagem do sr. como gestor não foi abalada?
HADDAD
 - Não cabe a mim nem me preocupar com isso. Enfrentamos um debate duro com o sistema S, lançamos indicadores de qualidade por escola, enfrentamos um debate com a área econômica para acabar com a DRU para a educação [Desvinculação de Receitas da União, que retirava recursos da educação para o governo gastar em outras áreas]. Tudo isso podia ter arranhado a imagem de quem quer que seja. Mas só me pautei pelo que deve ser feito e muitas vezes enfrentei problemas que exigem uma certa ousadia, que não era bem o perfil dos dirigentes do MEC.
FOLHA - Que autocrítica faz?
HADDAD 
- Muitas vezes, tem-se um temor reverencial em relação aos órgãos de controle. Se tivéssemos enfrentado o debate junto a eles demonstrando que um exame dessa natureza não pode correr o risco de uma licitação por menor preço, teríamos sensibilizado. Mas se contou com a tradição: sempre se fez licitação e sempre Cespe e Cesgranrio ganharam porque não há outras instituições capazes de realizar o exame. Quando viu a surpresa, o Inep não estava preparado para o embate jurídico do surgimento de um "player" [o consórcio Connasel] que cumpria os requisitos do edital, mas estava evidentemente despreparado para a sua realização.
FOLHA - Mas já durante a licitação surgiram críticas de que a mudança do Enem estava sendo feita de forma muito rápida.
HADDAD 
- Foi o quinto Enem com mais de 3 milhões de inscritos e, na minha opinião, não teria ocorrido nenhum problema significativo se Cespe e Cesgranrio tivessem feito.
FOLHA - Mas alguns problemas não tiveram relação direta com o furto da prova. Os gabaritos foram divulgados com erro, e o Sisu (sistema que seleciona alunos do Enem para universidades federais) ficou horas fora do ar, por exemplo.
HADDAD 
- No caso do Sisu, um milhão de pessoas navegaram pelo sistema durante os seis dias que ele operou. Houve uma questão técnica no primeiro dia que foi superada. É que, depois do furto, tudo ganha relevo muito maior. Mas sempre há ocorrências.
FOLHA - O Inep não falhou no acompanhamento do contrato? A auditoria interna aponta que os problemas de segurança foram comunicados verbalmente ao consórcio.
HADDAD 
- Do meu ponto de vista, o maior responsável é o consórcio, que assinou um contrato se responsabilizando pela segurança da prova. Possivelmente houve erros da gráfica e pode ter havido problemas de acompanhamento da impressão. O fato é que o furto foi filmado e não havia ninguém atrás do monitor para impedir.
FOLHA - O que vai mudar no Enem?
HADDAD 
- Estou na dependência das negociações que estão sendo feitas entre o Inep e os órgãos de controle. Não podemos tomar essa decisão sem ter a segurança de que não haverá objeção ao contrato com o Cespe. Esse é o entendimento que está sendo construído, com boas chances de uma solução definitiva para o modelo de contratação dos exames que certificam e selecionam.
FOLHA - O sr. sai do MEC em abril para ser candidato?
HADDAD 
- O presidente Lula, já reeleito, em novembro de 2006 me disse três coisas: você permanece ministro, eu quero em 60 dias um plano de educação na minha mesa com o compromisso de que você permaneça até o final do segundo mandato. De lá para cá, não conversamos mais sobre esse assunto.
FOLHA - A longo prazo, o sr. não pensa em cargo no Legislativo ou no Executivo?
HADDAD 
- Realmente não. Estou sendo muito sincero.
FOLHA - Onde estará em 1º de janeiro de 2011?
HADDAD 
- Provavelmente em São Paulo, me apresentando no departamento de Ciência Política da USP.
FOLHA - Um dos nomes mais prováveis do PT para a disputa do governo de São Paulo, o senador Aloizio Mercadante tem contra si ainda a lembrança dos "aloprados", em 2006, quando um coordenador da campanha dele foi flagrado negociando um dossiê contra tucanos. O sr. não considera um risco trazer este tema de novo para a campanha?
HADDAD 
- Eu não tenho esse diagnóstico. O senador Aloizio Mercadante, mesmo após aquele episódio que confundiu a opinião pública, teve um percentual considerável de votos, o que o credencia tanto à reeleição no Senado quanto à disputa para o governo do Estado [Mercadante teve 31,7% dos votos no primeiro turno, contra 57,9% de José Serra].
FOLHA - Ele é o seu candidato?
HADDAD 
- Quando fui consultado, eu disse duas coisas. A primeira, que considerava um equívoco o PT, em sete eleições, ter lançado sete nomes diferentes. Foi um argumento que o próprio presidente sublinhou. E, em segundo, [seria um equívoco] não considerar a hipótese de neste momento repetir o nome do senador, que teve um desempenho interessante na última eleição.
FOLHA - O sr. participaria de um eventual governo da Dilma?
HADDAD 
- Considero problemática qualquer manifestação nesse sentido porque a pessoa que assume a Presidência tem de ter total liberdade para montar sua equipe. Quando você assume que participaria, cria um constrangimento desnecessário e indevido. Considero que aqueles que participaram do governo Lula devem planejar suas vidas fora do governo.
FOLHA - Já está claro que o sr. apoia Mercadante. Quais são os prós e contras de outros nomes, como a ex-prefeita Marta Suplicy?
HADDAD 
- Eu entendo que os dois são os nomes mais viáveis do partido, com vantagem para o primeiro em função de ter disputado recentemente o governo do Estado, mas sem desapreço a outras postulações.
FOLHA - E Ciro Gomes? O fato de ele ser cogitado para candidato em São Paulo não revela a fragilidade do PT justamente no seu berço?
HADDAD 
- O Ciro é um grande quadro, o PSB é um partido cada vez mais próximo do PT, de maneira que em vários Estados o PT vai apoiar o PSB. Isso diz respeito muito mais ao cenário nacional que ao regional.
FOLHA - Dilma não está no PT desde a fundação e, em São Paulo, cogita-se Ciro. O partido perdeu a força?
HADDAD 
- A filiação da Dilma ao PT não é recente, e ela é egressa de um partido com laços históricos com o PT. Em segundo lugar, é preciso notar o desempenho da ministra Dilma durante o governo. Ela desatou nós muito interessantes no Ministério de Minas e Energia e na Casa Civil. E, por trás das medidas aparentemente administrativas que ela tomou, há uma visão de política pública do papel do Estado e do governo.
FOLHA - Mas o PT participou pouco da escolha dela como candidata.
HADDAD 
- É evidente que um dirigente como o presidente Lula, que concorreu a cinco eleições presidenciais e tem 83% de aprovação, terá um papel determinante na condução da sua sucessão.
FOLHA - Alguns cientistas políticos fazem a análise de que Lula ficou muito forte e o PT se enfraqueceu, perdendo quadros e sua imagem associada à ética. O que o sr. acha?
HADDAD 
- Talvez a questão que deveria ser respondida é como o Lula, em 2002, eleito por forças mais progressistas, fez um governo mais conservador do que em seu segundo mandato, em que ele foi eleito por uma coalizão mais conservadora. O segundo mandato avançou muito mais do ponto de vista de democratização do que o primeiro, do ponto de vista de direitos sociais.
FOLHA - E em relação à ética?
HADDAD 
- Ninguém está se saindo bem nesse quesito do ponto de vista de opinião pública, nem PT, nem PSDB, nem DEM. Não se trata de um pré-julgamento jurídico, mas de uma observação de caráter político. Ninguém se sai bem perante o eleitorado nessa questão, o que é muito ruim para a democracia porque o adiamento da reforma política já não se justifica em virtude do constrangimento que os próprios partidos estão passando perante a opinião pública.
FOLHA - Por que o primeiro mandato foi mais conservador do que o segundo?
HADDAD 
- Sobretudo a partir de 2005, o presidente se apropriou da máquina de maneira decisiva, a ponto de chamar a execução orçamentária para sua mesa. A partir de 2005, há uma mudança de comportamento e um arejamento para que novas ideias possam ser concebidas. O PDE (Plano de Desenvolvimento da Educação, lançado em 2007) e o PAC não seriam possíveis em 2003.
FOLHA - Por quê?
HADDAD 
- Não havia clima para grandes voos. Era um clima de constrangimento, de que qualquer alteração de rota poderia comprometer a estabilidade econômica e a sustentabilidade política. Aí essas hipóteses foram sendo testadas pelo presidente ao longo do tempo. E se verificou que na política tem muito tigre de papel.


Ministro admite trauma com Enem e descarta candidatura
Autor(es): ANTÔNIO GOIS e ANGELA PINHO
Folha de S. Paulo - 08/02/2010
 
Titular da Educação defende que Mercadante seja o nome do PT para o governo de SP 
Após o "trauma bastante violento" devido ao vazamento do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) em 2009 -do qual o Ministério da Educação ainda se recupera-, o ministro Fernando Haddad admitiu erros no processo de licitação, mas defendeu o novo formato da prova. Passado o período crítico, ele falou à Folha também sobre seu futuro político, negando a possibilidade de disputar o governo de São Paulo.
Para ele, o PT paulista errou, nas sete últimas eleições estaduais, ao ter tido sete candidatos diferentes, o que dificultou a consolidação de uma liderança. Além disso, diz, a possibilidade de o deputado Ciro Gomes (PSB-CE) ser o candidato petista em São Paulo seria fruto mais da conjuntura nacional -para consolidar Dilma Rousseff- do que da local.
O ministro, que também é professor de ciência política da USP, afirmou que, do ponto de vista da opinião pública, não há mais partido que tenha imagem associada à ética. O problema, diz, só será resolvido com uma reforma política.
A respeito do desgaste de sua imagem no ministério, Haddad disse que não se preocupava com isso, mas acha que não é tão grande, pois, segundo a mais recente pesquisa do Datafolha, a educação foi a área mais bem avaliada do governo.
Ainda sobre o Enem, afirmou que foi pego de surpresa com a vitória de um consórcio menos experiente para a distribuição das provas e reiterou que, para este ano, está discutindo com os órgãos de controle a ausência de licitação em favor do consórcio Cespe/Unb e da Cesgranrio e a realização de duas edições do exame.
 
FOLHA - A imagem que muitos ficaram do Enem foi de um processo caótico. Alunos foram alocados em locais distantes de casa e a prova vazou, entre outros problemas. Qual é a sua leitura do episódio?
FERNANDO HADDAD 
- Superamos a forma de seleção nos países desenvolvidos. Em países como os Estados Unidos, o estudante pleiteia a vaga na universidade conhecendo o seu desempenho por exames nacionais. Com o Enem, ele escolhe sabendo não só o seu desempenho, mas também o de seus concorrentes.
Tanto a forma da nova prova como o aplicativo de distribuição das vagas compensam as dificuldades decorrentes do furto da prova, que foi um trauma bastante violento para o Inep [Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas], do qual ele está se recuperando só agora.
FOLHA - A imagem do sr. como gestor não foi abalada?
HADDAD
 - Não cabe a mim nem me preocupar com isso. Enfrentamos um debate duro com o sistema S, lançamos indicadores de qualidade por escola, enfrentamos um debate com a área econômica para acabar com a DRU para a educação [Desvinculação de Receitas da União, que retirava recursos da educação para o governo gastar em outras áreas]. Tudo isso podia ter arranhado a imagem de quem quer que seja. Mas só me pautei pelo que deve ser feito e muitas vezes enfrentei problemas que exigem uma certa ousadia, que não era bem o perfil dos dirigentes do MEC.
FOLHA - Que autocrítica faz?
HADDAD 
- Muitas vezes, tem-se um temor reverencial em relação aos órgãos de controle. Se tivéssemos enfrentado o debate junto a eles demonstrando que um exame dessa natureza não pode correr o risco de uma licitação por menor preço, teríamos sensibilizado. Mas se contou com a tradição: sempre se fez licitação e sempre Cespe e Cesgranrio ganharam porque não há outras instituições capazes de realizar o exame. Quando viu a surpresa, o Inep não estava preparado para o embate jurídico do surgimento de um "player" [o consórcio Connasel] que cumpria os requisitos do edital, mas estava evidentemente despreparado para a sua realização.
FOLHA - Mas já durante a licitação surgiram críticas de que a mudança do Enem estava sendo feita de forma muito rápida.
HADDAD 
- Foi o quinto Enem com mais de 3 milhões de inscritos e, na minha opinião, não teria ocorrido nenhum problema significativo se Cespe e Cesgranrio tivessem feito.
FOLHA - Mas alguns problemas não tiveram relação direta com o furto da prova. Os gabaritos foram divulgados com erro, e o Sisu (sistema que seleciona alunos do Enem para universidades federais) ficou horas fora do ar, por exemplo.
HADDAD 
- No caso do Sisu, um milhão de pessoas navegaram pelo sistema durante os seis dias que ele operou. Houve uma questão técnica no primeiro dia que foi superada. É que, depois do furto, tudo ganha relevo muito maior. Mas sempre há ocorrências.
FOLHA - O Inep não falhou no acompanhamento do contrato? A auditoria interna aponta que os problemas de segurança foram comunicados verbalmente ao consórcio.
HADDAD 
- Do meu ponto de vista, o maior responsável é o consórcio, que assinou um contrato se responsabilizando pela segurança da prova. Possivelmente houve erros da gráfica e pode ter havido problemas de acompanhamento da impressão. O fato é que o furto foi filmado e não havia ninguém atrás do monitor para impedir.
FOLHA - O que vai mudar no Enem?
HADDAD 
- Estou na dependência das negociações que estão sendo feitas entre o Inep e os órgãos de controle. Não podemos tomar essa decisão sem ter a segurança de que não haverá objeção ao contrato com o Cespe. Esse é o entendimento que está sendo construído, com boas chances de uma solução definitiva para o modelo de contratação dos exames que certificam e selecionam.
FOLHA - O sr. sai do MEC em abril para ser candidato?
HADDAD 
- O presidente Lula, já reeleito, em novembro de 2006 me disse três coisas: você permanece ministro, eu quero em 60 dias um plano de educação na minha mesa com o compromisso de que você permaneça até o final do segundo mandato. De lá para cá, não conversamos mais sobre esse assunto.
FOLHA - A longo prazo, o sr. não pensa em cargo no Legislativo ou no Executivo?
HADDAD 
- Realmente não. Estou sendo muito sincero.
FOLHA - Onde estará em 1º de janeiro de 2011?
HADDAD 
- Provavelmente em São Paulo, me apresentando no departamento de Ciência Política da USP.
FOLHA - Um dos nomes mais prováveis do PT para a disputa do governo de São Paulo, o senador Aloizio Mercadante tem contra si ainda a lembrança dos "aloprados", em 2006, quando um coordenador da campanha dele foi flagrado negociando um dossiê contra tucanos. O sr. não considera um risco trazer este tema de novo para a campanha?
HADDAD 
- Eu não tenho esse diagnóstico. O senador Aloizio Mercadante, mesmo após aquele episódio que confundiu a opinião pública, teve um percentual considerável de votos, o que o credencia tanto à reeleição no Senado quanto à disputa para o governo do Estado [Mercadante teve 31,7% dos votos no primeiro turno, contra 57,9% de José Serra].
FOLHA - Ele é o seu candidato?
HADDAD 
- Quando fui consultado, eu disse duas coisas. A primeira, que considerava um equívoco o PT, em sete eleições, ter lançado sete nomes diferentes. Foi um argumento que o próprio presidente sublinhou. E, em segundo, [seria um equívoco] não considerar a hipótese de neste momento repetir o nome do senador, que teve um desempenho interessante na última eleição.
FOLHA - O sr. participaria de um eventual governo da Dilma?
HADDAD 
- Considero problemática qualquer manifestação nesse sentido porque a pessoa que assume a Presidência tem de ter total liberdade para montar sua equipe. Quando você assume que participaria, cria um constrangimento desnecessário e indevido. Considero que aqueles que participaram do governo Lula devem planejar suas vidas fora do governo.
FOLHA - Já está claro que o sr. apoia Mercadante. Quais são os prós e contras de outros nomes, como a ex-prefeita Marta Suplicy?
HADDAD 
- Eu entendo que os dois são os nomes mais viáveis do partido, com vantagem para o primeiro em função de ter disputado recentemente o governo do Estado, mas sem desapreço a outras postulações.
FOLHA - E Ciro Gomes? O fato de ele ser cogitado para candidato em São Paulo não revela a fragilidade do PT justamente no seu berço?
HADDAD 
- O Ciro é um grande quadro, o PSB é um partido cada vez mais próximo do PT, de maneira que em vários Estados o PT vai apoiar o PSB. Isso diz respeito muito mais ao cenário nacional que ao regional.
FOLHA - Dilma não está no PT desde a fundação e, em São Paulo, cogita-se Ciro. O partido perdeu a força?
HADDAD 
- A filiação da Dilma ao PT não é recente, e ela é egressa de um partido com laços históricos com o PT. Em segundo lugar, é preciso notar o desempenho da ministra Dilma durante o governo. Ela desatou nós muito interessantes no Ministério de Minas e Energia e na Casa Civil. E, por trás das medidas aparentemente administrativas que ela tomou, há uma visão de política pública do papel do Estado e do governo.
FOLHA - Mas o PT participou pouco da escolha dela como candidata.
HADDAD 
- É evidente que um dirigente como o presidente Lula, que concorreu a cinco eleições presidenciais e tem 83% de aprovação, terá um papel determinante na condução da sua sucessão.
FOLHA - Alguns cientistas políticos fazem a análise de que Lula ficou muito forte e o PT se enfraqueceu, perdendo quadros e sua imagem associada à ética. O que o sr. acha?
HADDAD 
- Talvez a questão que deveria ser respondida é como o Lula, em 2002, eleito por forças mais progressistas, fez um governo mais conservador do que em seu segundo mandato, em que ele foi eleito por uma coalizão mais conservadora. O segundo mandato avançou muito mais do ponto de vista de democratização do que o primeiro, do ponto de vista de direitos sociais.
FOLHA - E em relação à ética?
HADDAD 
- Ninguém está se saindo bem nesse quesito do ponto de vista de opinião pública, nem PT, nem PSDB, nem DEM. Não se trata de um pré-julgamento jurídico, mas de uma observação de caráter político. Ninguém se sai bem perante o eleitorado nessa questão, o que é muito ruim para a democracia porque o adiamento da reforma política já não se justifica em virtude do constrangimento que os próprios partidos estão passando perante a opinião pública.
FOLHA - Por que o primeiro mandato foi mais conservador do que o segundo?
HADDAD 
- Sobretudo a partir de 2005, o presidente se apropriou da máquina de maneira decisiva, a ponto de chamar a execução orçamentária para sua mesa. A partir de 2005, há uma mudança de comportamento e um arejamento para que novas ideias possam ser concebidas. O PDE (Plano de Desenvolvimento da Educação, lançado em 2007) e o PAC não seriam possíveis em 2003.
FOLHA - Por quê?
HADDAD 
- Não havia clima para grandes voos. Era um clima de constrangimento, de que qualquer alteração de rota poderia comprometer a estabilidade econômica e a sustentabilidade política. Aí essas hipóteses foram sendo testadas pelo presidente ao longo do tempo. E se verificou que na política tem muito tigre de papel.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Chernobil na Amazônia

Caros amigos,


A Chevron, gigante do petróleo poderá perder um processo histórico por despejar lixo tóxico na Amazônia -- vamos ajudar o povo da floresta a vencer nos tribunais da opinião pública e da lei. Ajude a pressionar o novo CEO da Chevron a reparar os danos ambientais causados e acabar com o lobby sujo:

Assine a petição
Uma longa batalha judicial entre aChevron e o corajoso povo indígena da Amazônia Equatoriana está quase chegando ao fim. Os indígenas vem tentando conseguir uma resposta da multinacional em relação aos bilhões de galões de substâncias tóxicas despejadas na floresta.

Se a Chevron for obrigada a pagar bilhões em danos, o caso irá sinalizaro fim da impunidade para empresas poluidoras do mundo todo. Com uma perda iminente, a Chevron lançou uma agressiva campanha de lobby para abafar o processo .

O novo CEO da Chevron, John Watson, sabe que a marca da empresa está ameaçada – então vamos fazer a nossa parte! Assine a petição pedindo para o Watson e a Chevron limparem a sujeira que deixaram no Equador. A petição será entregue a eles, aos acionistas a à mídia americana – clique no link abaixo para agir agora:

http://www.avaaz.org/po/chevron_toxic_legacy/?vl

Nos últimos anos, processos civis como este têm ajudado a mudar as políticas de algumas das maiores corporações do mundo. No entanto, a maior parte das multinacionais de petróleo gasta milhões de dólares todo ano em lobby e relações públicas para mudar leis ambientais e negar suas responsabilidades ambientais e de direitos humanos – e a Chevron é uma das piores.

De 1964 a 1990, a Texaco, pertencente à Chevron, despejou bilhões de galões de lixo tóxico na Amazônia Equatoriana e depois foi embora. Encarando uma derrota nos tribunais, a Chevron tem feito uso de seu poderoso lobby e departamento de relações públicas para intimidar seus críticos a ficarem em silêncio e se esquivar da culpa pelo enorme desastre ambiental e humano causado pela empresa.

A Chevron disse várias vezes que se recusa a pagar pela limpeza da região, mesmo obrigados pelo tribunal, dizendo que lutarão até o fim. A sua última estratégia: pressionar o governo dos Estados Unidos a obrigar o governo equatoriano a abandonar o caso.

Nós não podemos permitir que a Chevron esculache a justiça – vamos gerar um apoio em massa aos povos da floresta , ajudando-os a ganhar esta batalha. Clique aqui para assinar a petição e ajudar a entregar pessoalmente esta mensagem ensurdecedora ao novo chefe executivo da Chevron:

http://www.avaaz.org/po/chevron_toxic_legacy/?vl

Cidadãos do Equador e ao redor do mundo estão se unindo contra uma das empresas mais sujas do mundo. Se ganharmos, isso será mais um passo para um futuro de responsabilidade corporativa, de direitos humanos e ambientais. Vamos juntar nossas vozes e divulgar essa campanha!

Com esperança e determinação,

Luisa, Paula, Benjamin, Pascal, Paul, Alice, Ricken, Graziela e toda a equipe Avaaz

P.S. Essa campanha faz parte de uma iniciativa maior liderada pela Amazon Watch, Rainforest Network e outros aliados de direito ambiental e de direitos humanos ao redor do mundo. Saiba mais: http://www.texacotoxico.org/

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SOBRE A AVAAZ

Avaaz.org é uma organização independente sem fins lucrativos que visa garantir a representação dos valores da sociedade civil global na política internacional em questões que vão desde o aquecimento global até a guerra no Iraque e direitos humanos. Avaaz não recebe dinheiro de governos ou empresas e é composta por uma equipe global sediada em Londres, Nova York, Paris, Washington DC, Genebra e Rio de Janeiro. Avaaz significa "voz" em várias línguas européias e asiáticas. Telefone: +1 888 922 8229
Você está recebendo esta mensagem porque você assinou "" no 2010-01-27 usando o email stockler4@gmail.com. Para garantir que os nossoas alertas cheguem na sua caixa de entrada, porfavor adicione avaaz@avaaz.org na sua lista de endereços. Para mudar o email inscrito, sua língua ou outras informações pessoas, clique aqui:https://secure.avaaz.org/act/index.php?r=profile&user=40ca19d39be26f9eed0cf685adcb4de1&lang=po ou clique aqui para remover o seu email da nossa lista.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010


O terrorismo de Fernando Rodrigues



Em cada pequeno detalhe, a mídia tem tentado fazer a diferença a favor de Serra.
Hoje, saiu no blog do Fernando Rodrigues, na UOL, que o Governo Federal, estaria fazendo terrorismo político com o Bolsa-Família, ao "interpretar" documento assinado pelo MSD, onde se informa a questão da validade das mesmas, como aliás deve ser feito.
Em função da quebra de acordo por parte do beneficiado, que prevê a frequência à escola, de 85% para menores de 15 anos da família beneficiada e 75%, para maiores de 15 e menores de 18 anos, só esse ano, foram cortados 23,5 mil bolsas, com suspensão de outras 90 mil. Essa suspensão se dá quando essa frequência é quebrada, dando um tempo para que a gestão municipal investigue o motivo, para eventual corte ou manutenção, ainda, da mesma.
No documento, detalha-se como será a regra para renovação destes benefícios, levando-se em conta que num eventual novo governo, as regras possam mudar.
Óbvio!! Não se pode garantir a manutenção de nada, da atual política, caso entre um novo governo, inclusive baseado no discurso do presidente do partido que ainda lidera as pesquisas de intenção de voto, em entrevista dada à "Veja", dia desses.
Aí vem Fernando, transforma transparência em terrorismo do Governo, quando na verdade, sua interpretação é que distorce a informação, de acordo com suas conveniências...
Terrorismo político, Fernando, é isso:watch?v=EeH3uUqF5b4