quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Os negócios da Monsanto

Carlos del Frade (APE) para ARGENPRESS  


A fome é um negócio.                                         


As projeções dos investigadores dizem que a população mundial duplicará até 2050, a demanda de alimentos.

Este dado, uma verdadeira vergonha para a humanidade é lido, contudo, como uma oportunidade para os que fazem negócios nestas planícies abundantes

Segundo o professor de política agropecuária da Universidade de Illinois Bob Thompson: “O rol da América do Sul e da Argentina é muito importante porque tem mais potencial de produtividade que outras regiões, tem os melhores solos do mundo e o mundo os necessita. Nos próximos 40 anos se vão incorporar a uma população equivalente a duas vezes a China para alimentar. Ao que se somam as perspectivas de redução mundial da pobreza e o incremento de gente com melhores condições que acederão a uma dieta balanceada”, indicou em diálogo com diferentes meios de comunicação. Para os estudiosos, na primeira metade deste século a demanda mundial de alimentos poderia duplicar-se pelo crescimento da população mundial, enquanto que a outra metade responde ao incremento de cada vez mais pessoas nos países de baixos recursos.

Esta é uma reflexão pelo menos curiosa porque o sistema gera uma repetição de sua própria lógica: os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.

Talvez esta interpretação seja uma máscara de falsa consciência para aplacar o verdadeiro espirito do negócio florescente. A fome termina sendo uma ocasião inultrapassável para certas empresas que manejam, a nível mundial, o comércio de grãos e derivados.

E uma das multinacionais que se nota na linha de largada deste fenomenal pacote de dinheiro a custa das necessidades alimentares de milhões é a Monsanto, empresa que fatura 10 bilhões de dólares anuais, muitos dos quais os vende na Argentina onde conta com 50 mil hectares de terras na província de Buenos Aires, na região de Rojas.

Segundo o vice-presidente executivo de sustentabilidade da Monsanto, Jerry Steiner, a biotecnologia “será uma parte importante da solução, ao abrir novas fronteiras para melhorar o conteúdo nutricional dos grãos, aumentar sua tolerância à seca ou altas temperaturas e reduzir o uso de pesticidas”. Agrega que “esta realidade levanta um contexto favorável para a Argentina, que por ter similares condições agroecológicas aos Estados Unidos, mas no hemisfério sul, pode nutrir-se das novas tecnologías e investigações de forma mais rápida que o Brasil”, susteve o funcionário da multinacional que produz sementes e agrotóxicos de questionáveis efeitos na saúde humana.

O certo é que ante o avanço das urgências humanas, as grandes multinacionais esfregam as mãos celebrando o  dinheiro que farão às costas dos saqueados de sempre. O capitalismo, envolto nas crises financeiras que geram, planificam o futuro. Isto diagrama o cenário dos próximos 40 anos e ratifica a continuidade da devastação do meio ambiente, a irracional exploração dos recursos não renováveis e a pauperização da vida de milhões. E, ao mesmo tempo, vende produtos para saciar a fome que impulsiona e multiplica. A perversão levada ao extremo. A criação de massas de empobrecidos para que logo sejam os estados nacionais os clientes que comprem produtos para responder a essas demandas mínimas. Entre os que pensam o futuro e os negócios de amanhã a partir da fome dos que são demais nesta cápsula espacial chamada Terra, estão as grandes multinacionais de sementes e de agrotóxicos, como a Monsanto.

Uma verdadeira filantropa da humanidade.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

1958: Brasil 5 x 2 Suécia - Na íntegra

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Apontamentos sobre a pobreza


“Para os de cima, falar de comida é perda de tempo. E se compreende, porque já comeram”.
Bertolt Brecht

Marcelo Colussi (especial para ARGENPRESS.info)          

Discorrer sobre o tema da pobreza, é muito difícil. E por vários motivos. Por um lado, porque é muito complexo determinar claramente suas causas, o processo que a instaura, sua dinâmica geral. Mas por outro, porque é infinitamente mais dificultoso encontrar-lhe soluções concretas.

Indicando rápidamente, talvez como primeira aproximação, identificamos pobreza com carencias materiais, com falta de recursos, poderia dizer-se que a história mesma da Humanidade é uma constante luta contra este fantasma. O posto do ser humano no mundo não está assegurado de antemão; sua realização é uma permanente busca da satisfação de necessidades básicas que o permitem sobreviver, busca que, de inícios do século XXI e com todo o potencial técnico que se houve acumular, não termina nunca de se preencher. Hoje em día se produz entre uns 40 ou uns 50 % mais de alimento necessários para nutrir toda população mundial, mas a fome segue sendo a principal causa de morte de nossa espécie, enquanto que a atividade mais dinâmica, que leva as mais altas cotas de inteligência incorporada e gera o maior lucro, é a produção de armas!

De todo modo, a ideia de pobreza não está especialmente ligada a esse estado originário de carência que deve ser satisfeito día a día. Um povo determinado, em qualquer momento de sua história, simplesmente deve cumprir com o preenchimento dessas satisfações para seguir mantendo-se como unidade, com a tecnología que dispõe segundo seu grau de desenvolvimento (paleolítico, agricultura de subsistência, sociedades pós industriais, etc.). Nessa tarefa cotidiana, independente de sua capacidade produtiva, não se sente “pobre”. A noção de pobreza aparece quando há pontos de comparação: uma sociedade é pobre com respeito a outra vista como rica, uma classe social é uma ou outra coisa relativamente a outra, assim como o pode ser um indivíduo, só em comparação com outros -um anacoreta, ainda que nu, pode ser infinitamente rico, comparada sua vida espiritual com a de outro, um cidadão urbano “estressado” por suas dívidas, digamos-. A pobreza fala, em todo caso, não da quantidade de meios de sobrevivência mas sim do modo de sua apropriação, de sua distribuição social.

O chefe de uma tribo de colonos é pobre posto na bolsa de valores de New York, mas não o é em seu contexto originário: ali, é o chefe. Seguramente hoje a vida de um trabalhador médio de qualquer país industrializado é mais rico em termos de acesso a bens materiais em relação ao que pode haver sido a de um faraó egípcio, ou a de um Inca do Tahuantinsuyo. Mas há uma diferença substancial entre a vida do cidadão atual e a de um monarca.

Com tudo isto, então, queremos situar a ideia de pobreza -e portanto seu contrário: a riqueza- tanto em  produtos históricos, sociais. Um monarca, um chefe, o sacerdote supremo da tribo, etc., dispõe de uma cota de poder definitivamente superior a de um assalariado moderno com acesso ao conforto material gerado pela indústria destes últimos 100 anos, o qual não deixa de ser, pese todos os bens materiais, mais pobre em termos de relação política. Seria tolo talvez perguntar qual é mais rico ou qual o mais pobre. Em todo caso isto nos ilustra, uma vez mais, sobre a complexidade do tema. A rainha Isabel a Católica, no poderoso reino espanhol de fins do século XV e inícios do XVI, esteve oito anos com a mesma blusa como promessa até que se venceram aos mouros. Alguém ousaria dizer que era uma pobre diaba imunda?

II

Fazer uma leitura histórica do conceito de pobreza leva a uma exegese que, além de não ser o objetivo deste breve artigo, implicaria uma viagem monumental pela história humana. Viagem que deveria tomar em conta os diferentes momentos havidos em relação ao desenvolvimento da capacidade produtiva, e à forma em que o produto dessa capacidade foi repartido socialmente.

Pobres sempre existiram, diz uma visão simplista das coisas. Mas desde quando é possível começar a encontrar-los como tais na história? Na época das cavernas nada poderia autorizar vê-los como realidade social concreta. Em todo caso, adiante desse passo trascendental que significa a humanização de alguns macacos, deveríamos ver uma riqueza qualitativa fenomenal: um animal começa a modificar seu entorno natural, produz mudanças deliberadamente, trabalha. Faz aqui uma primeira riqueza humana espetacular, ainda que as condições materiais de sobrevivência daqueles ancestrais hoje, as pudéssemos ver como da mais radical pobreza.

Se pode falar com propriedade de pobres, já como categoría sociológica, na medida em que aparecem seus contrários: os ricos. As sociedades claramente divididas em classes sociais apresentam pobres: há uma divisão clara entre os que tem e os que não o tem. Em nome de que sucedeu isto, se estabelece, se aceita, se sacraliza? Que mecanismo natural o decide? Não entraremos a ver o por que desta dinâmica histórica, dado que o tema exige, em si mesmo, um desenvolvimento infinitamente mais amplo do que aquí nos propomos. O que se pode antecipar é que o intentar dar respostas convincentes a estas interrogações tem suscitado reflexões, tomadas de posições, revoluções e um sem número de ações várias na historia universal, sem que até o momento se tenha superado o problema (porque seguem existindo pobres e ricos todavía, e como vão as coisas, nada faz pensar que isso vá desaparecer a curto prazo).

Enquanto houver uma injusta, uma inadequada repartição do produto social, haverá pobres. Isto é: os pobres se definem em relação a seus contrários. Ainda que possa parecer um jogo de palavras (mas não o é, por certo), é especialmente reveladora essa oposição: Existem pobres enquanto houver ricos, existe quem tem menos (estão carentes) enquanto existirem outros que tem em demasia (lhes sobra).

Por que a alguns lhes sobra e a outros lhes falta? Este é o núcleo do eixo para entender o fenômeno da pobreza: Existe quem tem pouco porque outros possuem demais.

Entendido assim, então, a pobreza é um fenômeno inteiramente humano, social. Não tem comparação no campo natural, não depende de nenhum determinante físico-químico. Insistimos com o conceito: a pobreza não se define pela quantidade de riqueza que se lhe opõe senão pela qualidade de sua distribuição. Um rei, mesmo em uma tanga, é rei, é rico, comparado com seus súditos. E a partir de uma visão de mundo diferente, um asceta anacoreta em sua reclusão voluntária, ainda que quase não coma nem tenha acesso aos prazeres da vida mundana, em sua riqueza espiritual se sente infinitamente mais rico que o mundano comum. Desde onde e como “medir” a pobreza então?

III

Hoje em dia, totalmente envoltos por uma lógica mercantilista, por uma cultura do consumo a qualquer custo (capitalista, para dizer-lo sem tanto rodeio), entendemos o conceito de pobreza em relação indissolúvel com a carência de recursos materiais.

Desde já, essa noção é correta em um sentido: com o auge espetacular da produção, mercê à revolução científico-técnológica posta em marcha há um par de séculos e nunca mais detida, sempre mais rápida e em perene expansão, a dinâmica generalizada se resume no ter, no consumir. O sentido implícito do processo de humanização, do progresso, é ter coisas materiais. A vida termina valorizando-se em termos de objetos; se é, o que se tem.

Nesse cenário imposto desde que a economia capitalista européia começou a expandir-se pelo mundo, atualmente globalizado e entronizado com uma força desconhecida anteriormente na história, ser pobre significa não dispor de todas as coisas que a produtividade humana moderna pode oferecer. Civilizações agrárias milenares, que lograram desenvolvimentos fenomenais em termos culturais (a hindu, as americanas pré-colombinas, a chinesa) passam a ser pobres frente à avalanche modernizadora de oferta de bens. Surge aí o mito do “desenvolvimento”, e seu contrário: o “subdesenvolvimento”'.

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Não cabe nenhuma dúvida que a forma em que se vai construindo a sociedade global entre desenvolvidos e subdesenvolvidos é, além de injusta em termos éticos, absolutamente insustentável como projeto humano. Não é aceitável, mas muito menos é viável no tempo e em relação aos recursos que proveem a natureza, um modelo de organização social onde 20% da população humana consome 80% de toda produção.

Ligando a pobreza a esta visão fundamentalmente material, é descaradamente real que a brecha entre “ricos desenvolvidos” e pobres "em vias de desenvolvimento” cresce. Se o sonho de progreso científico-técnológico que iludiu cabeças e corações em pleno auge positivista, no início da expansão do modelo capitalista, fez albergar expectativas de uma paulatina, e finalmente total, extinção da pobreza no mundo, hoje, ainda mais com as tendências neoliberais, triunfantes neste momento, se vê que essa prosperidade universal está muito longe de alcançar-se. Pelo contrário: a brecha entre ricos e pobres (entre Norte desenvolvido e Sul subdesenvolvido, assim como entre estratos beneficiados e postergados no interno de cada estado nacional -fenômeno mais especialmente acentuado no Sul), cresce. Dito de outra maneira: a pobreza cresce. O mais descaradamente ainda: os pobres de carne e osso crescem. De três nascimentos que se produzem por segundo no mundo, dois deles tem lugar em um bairro marginal de alguma atestada macro cidade do Terceiro Mundo.

No ano de 1820 os 20% mais ricos do planeta tinham 3 vezes mais que os 20% mais pobres; para 1913 esses 20% mais ricos ganhavam 11 vezes mais que os 20% mais pobres. Em 1997, com um crescimento descomunal da produtividade em termos históricos, os 20% mais ricos tinham acesso 74 vezes maior às riquezas produzidas que os 20% mais pobres. Em países como o Brasil e Guatemala essa diferença era ainda maior, chegando-se ao extremo patético de 120 a 1. Os 6% da população mundial possuem 59% da riqueza total do planeta, e 98% desses 6% da população vivem nos países mais ricos. A população estadounidense, pese o declive que hoje em dia experimenta seu país como unidade nacional (mas não assim suas grandes empresas transnacionalizadas!), consomem o dobro do que consumia na década de 50 do século passado, seu momento de maior auge econômico.

Um filhote de cachorro de uma família média de um país do Norte consome na média anual mais carne vermelha que um habitante do Terceiro Mundo. Um bilhão de pessoas carecem de acesso à água potável,enquanto 1.300 milhões vivem com menos de um dólar por dia. Um bilhão são analfabetos. Era das comunicações, mas a metade da população mundial esta a não menos de uma hora a pé do telefone mais próximo. Segundo estatísticas de organismos internacionais, o custo anual adicional para se ter acesso universal aos serviços sociais básicos em todos os países em desenvolvimento seria de 15 bilhões de dólares americanos (educação básica, água e saneamento para todos) enquanto nos Estados Unidos se gastam 8 bilhões anuais em cosméticos, e 11 bilhões são gastos anualmente na Europa em sorvete.

Segundo dados das Nações Unidas, o patrimônio das 358 pessoas cujos ativos excedem 1 bilhão de dólares -que podem caber em um Boeing 747- supera o ingresso anual combinado de países em que vivem 45% da população mundial.

Não cabem dúvidas: lamentavelmente, pese à "cooperação ao desenvolvimento" (?) existente, a pobreza cresce. Vale acrescentar como fato não menos arrepiante, que em 50 anos de “cooperação” que o Norte vem implantando com o Sul, desde a já lendária Aliança para o Progresso do presidente John Kennedy nos anos 60, nem um só pobre no mundo deixou de ser tal graças a estes mecanismos de solidariedade(?), o que mostra que essas políticas não são senão outros tantos instrumentos de controle social.

Além de constatar-lo pelos dados anteriores (por si arrepiantes), podemos ver esse crescimento da pobreza com outros indicadores (não menos alarmantes): no planeta, e fundamentalmente na área desenvolvida, se destinam mais de 500 bilhões anuais para drogas (segunda atividade econômica da espécie humana na atualidade) e mais de um bilhão anual (mais de 30.000 dólares por segundo) a gastos militares (o item mais rentável). Que se gastem essas cifras astronômicas em sorvetes, cosméticos, drogas e armas também nos diz: a pobreza cresce (e não necessitamos ser o ermitão asceta para entender o que isso significa!).

IV

Estamos frente a um prejuízo, hoje já globalizado, onde a ideia de desenvolvimento está ligada indissoluvelmente ao progresso material. Grandes culturas da história, com enormes avanços tecnológicos, com profundos ensinamentos morais, meio ambientais, com reflexões acerca do fenômeno humano de grande valor, como o dizíamos mais acima, postas em comparação com o padrão tecnocrático-econômico que rege atualmente o mundo, aparecem como atrasadas, pobres. O são, segundo esse critério, porque não tem seguido o ritmo de crescimento tecnológico e de acumulação de riquezas que se deu na Europa. São “pobres” a tragédia grega, a cosmovisão maia, a arte chinesa, a filosofía budista?

Poderíamos, com uma atitude serena e objetiva, atrever-nos a seguir chamando pobre a uma cosmovisão que põe o acento no equilibrio ser humano/meio ambiente (como por exemplo a dos povos americanos tradicionais) quando vemos o disparate ecológico que tem causado o desenvolvimento industrial, com níveis de degradação do planeta por falta de previsão e o desejo doentio de lucro beirando à insanidade? Onde está aí a riqueza?

Poderíamos, com uma atitude serena e objetiva, atrever-nos a seguir chamando pobre à civilizações que não necessitam de um consumo cada vez mais massivo de narcóticos para fugir de suas realidades como sucede nos países industrializados? Onde está é aí a riqueza?

E qual é a riqueza que nos propõe o modelo de consumo desenvolvido? Fundamentalmente isso: consumo! Consumo como motor da vida, consumo pelo consumo mesmo. Seu arquétipo é um cidadão tranquilo, que não protesta (que tampouco desfruta a tragédia grega nem a arte chinesa), sentado diante da tela da televisão (Hollywood, Walt Disney?), tomando Coca-cola e usando seus cartões de crédito. Essa é a riqueza? Vale dizer que tudo isso logo se tem que pagar, e hoje vemos, com a crise galopante do império maior do capitalismo, por onde vão as coisas: a dívida é materialmente impagável, tanto a pública como a privada (cada cidadão estadounidense tem em média 5 cartões de crédito e 7.000 dólares de dívida). Onde está a riqueza?

Por certo que não se pretende transmitir uma ideia ingenuamente bucólica de civilizações não-ocidentais pré- industriais; desde já que a qualidade de vida que a tecnología nos pode proporcionar (água potável, saneamento ambiental, mais e melhores alimentos, educação para todos, comunicações, mais tempo livre, etc.) é fabulosa, e por certo há que bendizer-la. As comunidades hippies de não-consumo, enquanto ilhas alternativas em meio da voragem moderna, são insustentáveis (a história o demostrou). O que deve ser posto em debate -debate que, por certo, já está aberto, e deve seguir alimentando-se, é a ideia de riqueza que os modelos modernos e pós-modernos nos oferecem.

A riqueza não pode ser somente consumir. Gastar quantidades impressionantes em sorvetes, animais de estimação, cosméticos ou drogas junto a gente que come uma vez por dia, ou não come, não constitui nenhuma riqueza em termos humanos. Fala, em todo caso, de modelos de desenvolvimento, de visões de vida e de projetos de ser humano que evidenciam, fundamentalmente, uma pobreza existencial profunda (alarmante, sombría). Se essa é a riqueza que nos oferece o pós-modernismo (cada um com seu próprio veículo, consumindo refrigerantes e hamburger -ou drogas!-, e com o lap top até para ir ao banho), se a profundidade da tragédia grega foi substituída por King Kong e a profundidade dos sistemas de pensamento orientais deram lugar aos livros de autoajuda realmente, como disse Saramago, nós merecemos desaparecer como espécie.

Desde já o problema da pobreza não é uma questão de atitude moral, de caridade para com o despossuído. Exércitos de Madres Teresas e de voluntariados (tão em moda hoje em dia) não alcançam; nem sequer servem para fazer cócegas ao problema. O tema da pobreza é claramente uma das perguntas medulares que atravessam a história humana. Que sua resposta deve ser difícil o evidencia o estado atual do mundo: cada vez mais armas, mais sorvetes e mais cosméticos, e cada vez mais pobres (e não só os que não comem; também os que não sabem o que fazer com o tempo livre.... consumir Hollywood, ou videogames? Drogas talvez?). A pergunta em torno à pobreza é uma interrogação sobre a condição humana mesma. Por que nos resulta tão tentador deixarmo-nos seduzir pela Coca-cola e os hamburgueres? Tão pobres somos?

Lutar contra a pobreza implica, como mínimo, repartir mais equitativamente os produtos do trabalho humano (luta política fundamentalmente -que indiretamente inclui o militar, continuação da política por outros meios-). Mas também implica não deixarmos de fazer essas perguntas que calam ao mais fundo de nossa existência. Digamos  com um exemplo: a população da Europa do leste, ainda na era do “socialismo real”, ajudou a fazer cair o muro de Berlín fascinada pelo videocassete ou a calça de vaqueiro que suas economías não lhes provinham. Hoje se lamentam do perdido, e em cada ocasião que tem, manifestam sua ansiedade pela segurança material mínima que já não podem ter. Então, complementando a pergunta anterior, deve-se adicionar -para se perguntar com a mesma força-: por que nos seduzem tanto os chocalhos da cobra? 

sábado, 6 de agosto de 2011

até na Avaaz: Ameaça à Internet no Brasil

Avaaz.org - The World in Action Caros amigos de todo o Brasil, 
Na semana que vem, o Congresso poderá votar um projeto de lei que representa um golpe contra a liberdade da internet dos brasileiros. A pressão da opinião pública barrou o projeto de lei em 2009 e nós podemos fazer isso de novo. Vamos usar a web para derrotar esse projeto de lei! Envie agora mesmo uma mensagem aos parlamentares sobre o assunto:
Na semana que vem, o Congresso poderá votar um projeto de lei que restringiria radicalmente a liberdade da internet no Brasil, criminalizando atividades on-line cotidianas tais como compartilhar músicas e restringir práticas essenciais para blogs. Temos apenas seis dias para barrar a votação.
A pressão da opinião pública derrotou um ataque contra a liberdade da internet em 2009 e nós podemos fazer isso de novo! O projeto de lei tramita neste momento em três comissões da Câmara dos Deputados e esses políticos estão observando atentamente a reação da opinião pública nos dias que antecedem à grande votação. Agora é nossa chance de lançar um protesto nacional e forçá-los a proteger as liberdades da internet.
O Brasil tem mais de 75 milhões de internautas e se nos unirmos nossas vozes poderão ser ensurdecedoras. Envie uma mensagem agora mesmo às lideranças das comissões de Constituição e Justiça, Ciência e Tecnologia e Segurança Pública e depois divulgue a campanha entre seus amigos e familiares em todo o Brasil:
http://www.avaaz.org/po/save_brazils_internet/?vl
O projeto de lei do deputado Azeredo sobre a internet supostamente teria o objetivo de nos proteger contra fraudadores e hackers. Porém, como alguém que faz uma cirurgia com uma motosserra, as normas excessivamente cautelosas impostas pelo projeto de lei trariam altíssimos custos sem de fato cumprir seu objetivo. Em vez de capturar os verdadeiros criminosos, elas penalizariam todos nós. Por esse motivo, até mesmo o importante site anti-pedofilia, o SaferNet é contra o PL Azeredo.
Se esse projeto de lei for aprovado, nossa privacidade e liberdade de expressão, criação e acesso on-line ficarão gravemente limitadas. Pior que isso, os provedores de internet que mantêm informações detalhadas sobre nosso histórico de navegação na internet passarão a ser “policiais virtuais” monitorando os usuários a todo momento.
O projeto de lei tem circulado em Brasília por mais de uma década, e a pressão da opinião pública já o derrotou antes. Em 2009, uma consulta pública sobre o “Marco Civil da Internet” barrou o andamento do projeto. Mas alguns meses atrás, o deputado Azeredo tentou apressar a aprovação no Congresso, usando os ataques de crackers aos sites do governo como desculpa. Um novo Congresso e uma maior conscientização sobre as amplas implicações do projeto de lei significam que nossas vozes poderão fazer a diferença. Envie agora mesmo uma mensagem às lideranças na Câmara:
http://www.avaaz.org/po/save_brazils_internet/?vl
Infelizmente, o PL Azeredo não é a única lei desse tipo. Em todo o mundo, na Índia, Turquia, Estados Unidos e outros países, a liberdade da internet está sob ataque promovido por iniciativas similares. Mas os membros da Avaaz nesses países estão se mobilizando. Vamos fazer a nossa parte neste movimento popular global em defesa da web barrando o PL Azeredo.
Com esperança,
Emma, David, Ricken, Maria Paz, Giulia, Rewan e a equipe da Avaaz
FONTES:
Petição do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, instituição parceira da Avaaz:
http://www.idec.org.br/campanhas/facadiferenca.aspx?idc=24
Liberdade de internautas no Brasil pode estar com os dias contados (Portal Imprensa):
http://portalimprensa.uol.com.br/noticias/brasil/43707/liberdade+de+i...
Entenda o que é o marco civil da internet (UOL):
http://tecnologia.uol.com.br/ultimas-noticias/redacao/2010/06/09/ente...
'AI-5 digital' volta a circular no Congresso (Rede Brasil Atual):
http://www.redebrasilatual.com.br/temas/tecnologia/2011/06/ai-5-digit...
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quarta-feira, 20 de julho de 2011

Problemas e soluções concretas

Problemas e soluções concretas Imprimir E-mail
Escrito por Wladimir Pomar   
Terça, 19 de Julho de 2011


Como comentamos, a questão do desenvolvimento aparece, para muitos, como uma contradição insolúvel entre o crescimento econômico e o atendimento das demandas sociais. Na esteira dessa discussão, há os que acusam os partidos de darem prioridade à luta institucional, descaracterizando-se do ponto de vista ideológico de classe. E citam, como exemplo, a forma como os parlamentares encaram as questões que interessam aos trabalhadores. O que teria levado as centrais sindicais, durante a campanha de 2010, a fazerem propostas mais avançadas do que os partidos e o programa da candidata Dilma.

É lógico que eles devem estar se referindo aos partidos de esquerda, já que os partidos de centro e de direita demonstram sempre firme viés ideológico, encaram os interesses dos trabalhadores como contrários a seus próprios interesses de classe e renegam as propostas das centrais sindicais como inaceitáveis, a não ser quando elas servem à sua luta contra o PT e o governo Dilma.

Aliás, as supostas propostas sindicais mais avançadas do que as dos partidos de esquerda deveriam ser comprovadas com exemplos mais precisos. Isto, para que se possa entender melhor porque o PT, e não as centrais sindicais, é o alvo principal dos ataques da direita e dos setores reacionários da burguesia.

De qualquer modo, o pano de fundo dessas críticas aos partidos de esquerda está na pergunta: qual crescimento deveremos ter e a quem ele deve beneficiar? Ou seja, podemos ou não prescindir do capitalismo para realizar o atual processo de desenvolvimento do Brasil? Podemos ou não realizar um desenvolvimento social e ambientalmente justo e totalmente de acordo com os interesses populares?

Se a resposta for positiva para ambas as perguntas, os que pensam assim têm o dever de explicar como deveremos liquidar com o atual modo de produção capitalista predominante e criar um novo. Ou, na melhor das hipóteses, como mudar a atual correlação de forças políticas e possibilitar ao governo Dilma enquadrar o poder econômico e subordiná-lo aos interesses populares.

Se acharem que isso é uma questão de exclusiva vontade política, então talvez tenham razão em dizer que os partidos de esquerda se descaracterizaram do ponto de vista ideológico de classe e abandonaram os interesses dos trabalhadores, e que é necessário substituir o pragmatismo pelo voluntarismo.

No entanto, se isso for uma questão de luta de classes, social e política, em que o estágio de desenvolvimento das forças produtivas e das relações de produção, assim como a correlação entre as forças políticas, impõe limites e desvios ao processo de desenvolvimento econômico, social e político, então será necessário abandonar qualquer tipo de voluntarismo e estabelecer estratégias e táticas que levem à acumulação de forças e à criação de condições que permitam aos trabalhadores e demais camadas populares apropriar-se do Estado.

Uma sociedade capaz de realizar um desenvolvimento social e ambientalmente justo e totalmente de acordo com os interesses populares só pode ser uma sociedade comunista. Mesmo uma sociedade socialista, de transição, ainda será uma sociedade cujo desenvolvimento social e ambiental não será completamente justo, nem totalmente de acordo com os interesses populares imediatos.

Isto porque aquelas metas de justiça somente serão viáveis com o pleno desenvolvimento das forças produtivas. O que significa chegar ao ponto em que o capitalismo esgotou todas as suas possibilidades de desenvolvimento e seu papel histórico. Até lá, como a experiência histórica do século 20 demonstrou, mesmo nas sociedades socialistas haverá convivência e disputa entre formas de propriedade e de produção capitalistas e sociais.

A situação do Brasil e do governo Dilma é ainda mais complexa porque aqui não ocorreu qualquer revolução popular, nem há perspectiva de que tal possibilidade esteja num horizonte próximo. Os trabalhadores e outras forças populares guindaram os partidos de esquerda ao governo, mesmo assim porque esses partidos fizeram coalizão com forças de centro e de centro-direita.

Para complicar ainda mais, isso ocorreu numa situação em que grande parte da propriedade social (estatal e pública), construída em anos anteriores, foi privatizada, tornando-se propriedade capitalista, inclusive desnacionalizada. E em que o Estado foi sucateado e perdeu grande parte de sua capacidade de poupança, investimento e indução econômica. Em tais condições, achar que é possível desenvolver o Brasil de forma totalmente justa e de acordo com os interesses populares é utopia pura.

O que devem fazer os partidos de esquerda no governo, diante de uma situação como essa? Abandonar o governo, dizendo para o povão que não podem desenvolver o país da forma justa que gostariam? Ou devem adotar uma estratégia que estimule o desenvolvimento capitalista mas, ao mesmo tempo, adote instrumentos de democratização do capital, multiplique as formas sociais de propriedade e de produção (estatais, públicas, solidárias etc.), e introduza mecanismos de redistribuição constante da renda, elevando o poder de compra e a educação das camadas mais pobres da população?

Mesmo a estratégia ambígua de desenvolvimento capitalista, combinada com democratização do capital, desenvolvimento de formas sociais e de redistribuição de renda não é de simples execução. Ela enfrenta diferentes formas de resistência, tanto dos partidos de centro e centro-direita da base de sustentação do governo quanto dos partidos de direita e de ultra-esquerda, seja no parlamento, na imprensa e nas organizações e movimentos sociais. A disputa pela opinião pública ocorre tanto dentro quanto fora do governo.

Nessas condições, os partidos de esquerda têm que travar tal disputa em todos esses terrenos. Nesse sentido, a crítica a um certo abandono no trabalho de base tem razão de ser, e tal abandono pode até ter como explicação uma mudança ideológica e política em segmentos desses partidos. Porém, mesmo que isto tenha ocorrido, a solução está em dar respostas concretas aos problemas originados da situação inusitada e impensável do Brasil nos anos recentes. Respostas, aliás, que passam longe das soluções sugeridas pela derrapagem na ultra-esquerda.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Seremos 7 bilhões em outubro


Há pouco mais de uma década, em 1999, a população do mundo era de 6 bilhões de pessoas. Nesses doze anos, nasceu tanta gente que os demógrafos afirmam que até o final de outubro a população mundial chegará aos 7 bilhões.

Com cinco bebês nascendo a cada segundo, todo ano mais 78 milhões de serem humanos são adicionados à comunidade global.

De acordo com as Nações Unidas, nesse ritmo serão 8 bilhões de pessoas em 2025. Grande parte desse aumento dramático encontra explicação nas nações mais pobres do mundo, que deverão dobrar seus números ao longo da próxima década.

Agora o mais assustador. Com todos os problemas do meio ambiente, perto de um bilhão de pessoas passam fome todos os dias. E os pesquisadores não sabem como serão alimentadas as pessoas em meados deste século, quando a população mundial chegar a 9 bilhões.